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O pesadelo da elite canibal

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11.10.2026

Stefan Zweig, em “Brasil, país do futuro”, enxergou na formação mestiça do povo brasileiro uma possibilidade extraordinária de civilização.

Enquanto a Europa se matava por algumas centenas de metros de terra, travando guerras sangrentas para conquistar ou defender insignificantes parcelas de território, o Barão do Rio Branco ampliava as fronteiras do Brasil negociando, conversando, argumentando e fazendo da diplomacia uma arma de construção nacional. Incorporou ao país territórios de dimensões comparáveis às de nações europeias sem precisar recorrer à guerra. Havia nisso uma inteligência política extraordinária e a manifestação de uma nova concepção de civilização: aquela que compreende que a grandeza de uma nação não se mede apenas pela força de seus exércitos, mas pela capacidade de transformar a palavra em instrumento de conquista, a negociação em estratégia de poder e a inteligência em patrimônio nacional.

O otimismo de Zweig era contagiante e alimentava o sonho de um país capaz de superar, pela convivência entre diferentes, as contradições que haviam conduzido tantos países a séculos de guerras, perseguições e massacres. As décadas seguintes alimentaram, em alguma medida, essa esperança, com a expansão da democracia e a conquista de novos direitos, até que a ditadura militar interrompeu violentamente esse processo e mutilou muitas das possibilidades que se anunciavam.

Hoje, as virtudes brasileiras voltam a ser atacadas pelo viralatismo de inspiração fascista, que enxerga na diversidade um problema, na conciliação uma fraqueza e na pluralidade uma ameaça. Para essa mentalidade autoritária, conviver com as diferenças é capitular, negociar é demonstrar covardia e impor a própria vontade pela força é a única forma concebível de virtude. Não por acaso, a estupidez constitui sua diretriz: incapaz de compreender a complexidade humana, ela sonha com uma sociedade purificada de suas diferenças, como se a humanidade pudesse ser corrigida à força e a diversidade fosse uma doença a extirpar. O problema é que, quando o sonho da pureza se transforma em projeto político, a civilização deixa de ser uma promessa e volta a ser uma vítima.

A expressão “homem cordial” foi popularizada por Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, a partir de uma expressão anterior de Ribeiro Couto. Mas, na minha opinião, a cordialidade brasileira não é um mito: o........

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