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Minha entrevista com Fidel Castro

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13.08.2026

Corria o ano de 2001.

Naquela época trabalhava como repórter freelancer para várias publicações do Brasil e do exterior.

Recebi a incumbência, então, da Revista Reportagem, dirigida pelo grande jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, de cobrir a 9ª Reunião do Foro de São Paulo, que se realizaria em Havana.

Lá fui eu, escrever meus modestos artigos sobre o colóquio, que reunia os principais dirigentes da esquerda latino-americana.

Estava prevista a presença de Fidel Castro no ato de encerramento, mas surpreendentemente ele chegou no meio das atividades, que se realizavam no Palácio das Convenções, ocupando um lugar na mesa e ouvindo as intervenções que debatiam os mais diversos assuntos.

Quando a sessão foi encerrada, para que os delegados pudessem jantar antes das solenidades finais, Fidel fez uma afirmação para os jornalistas que se acotovelavam na fila do gargarejo, bem próxima ao palco:

– Maradona foi o maior jogador da história do futebol.

O ídolo argentino estava em tratamento na ilha, tinha desenvolvido uma relação de amizade com o líder cubano, que pela primeira vez na vida se interessava pelo esporte bretão, como diria o saudoso radialista Fiori Giglioti.Eu fiquei enfezado, cercado por jornalistas portenhos, e me arrisquei:

– Comandante, o senhor pode entender de beisebol e revolução, mas de futebol está por fora. Maradona não é metade do Pelé, em números, feitos ou talento.

Abriu-se uma ferrenha discussão, obviamente movida a humor. Ele escutava meus argumentos, nitidamente encantado pela personalidade de Maradona, mas sem poder refutar os fatos que eu desfilava, transbordando minha alma santista.

Entre contrariado e convencido, ele deu uma última espetada:

– Está bem, está bem. Peço desculpas por minha afirmação precipitada. Como posso reparar meu erro?

– Gostaria de uma entrevista com o senhor assim que se encerrasse a reunião.

Todo mundo riu. Ele também. E fui-me embora jantar, certo de que minha proposta não tinha sido levada a sério.

Eu já estava fora do auditório quando um segurança veio correndo me chamar:

– Brasileiro, brasileiro, aonde vai? O comandante está te chamando, volte para o auditório.

A passos rápidos, retornei. Ele já tinha se retirado, mas seu secretário privado me aguardava:

– Depois da atividade, aqui mesmo no Palácio das Convenções, o comandante te receberá para a entrevista.

Cumpriu sua palavra. Às 3h da manhã, depois de discursar por quase quatro horas, estava a postos para responder minhas perguntas.

O encontro demorou quase treze horas, só foi se encerrar às 16h. Jantamos, tomamos café da manhã, lanchamos e almoçamos enquanto ele aceitava abordar todos os temas, sem restrição ou cerimônia.

Dizem que foi a mais longa entrevista contínua que ele concedeu na vida. Somente seria publicada em março de 2002. Era uma época marcada pelo colapso econômico argentino, que levaria à renúncia do presidente Fernando de la Rua, e pelo início da guerra dos Estados Unidos contra o Afeganistão, em retaliação ao atentado contra o World Trade Center.

Também era um momento definido pela crise do neoliberalismo na América Latina. Hugo Chávez tinha tomado posse na Venezuela menos de três anos antes e já se vislumbravam as chances de Lula chegar ao Palácio do Planalto.

O que vocês lerão a seguir é uma versão mais enxuta, adequada aos tempos das redes sociais.

Os atentados contra Nova Iorque e a guerra contra o Afeganistão

Como o senhor explica a decisão dos Estados Unidos de ir a guerra no Afeganistão? Trata-se de uma retaliação contra os grupos responsáveis pelo atentado de 11 de setembro, buscando aniquilar uma ameaça à segurança norte-americano, ou vai além disso, em sua opinião?

Os EUA gastam dinheiro com as guerras principalmente porque há uma crise, há problemas, e eles têm que desviar atenção para a guerra. Quando há guerra, fornecem muitas armas, navios e tudo o mais, colocando dinheiro em circulação. Eu me recordo que, na Segunda Guerra Mundial, a economia estava em crise. Roosevelt não começou esse conflito, mas tirou o país do isolacionismo. Viu o perigo do fascismo e aproveitou a oportunidade.

Como a Grã-Bretanha ainda era dona de grandes colônias, como a Índia, e exercia quase um monopólio sobre suas atividades econômicas, os norte-americanos negociaram com Churchill [Winston Churchill, primeiro-ministro conservador] e trocaram apoio militar por liberação do comércio com aqueles países. Ele era autenticamente partidário do livre comércio, saiu da crise de 1929 com a construção de infraestrutura. Injetou dinheiro no mercado, ainda que isso tenha produzido um pouco de inflação.

Roosevelt fez andar a economia. Mas me recordo que, começada a guerra, os preços subiram e ele aumentou os salários. Além disso, a guerra reduz o desemprego, muita gente alistada recebe salário.

Eu me lembro, quando tinha 15 anos, talvez 16 – sou de 1926 – e começou a guerra, acho que em dezembro. Recordo os discursos de Roosevelt, os orçamentos e planos militares: construir não sei quantos milhares de aviões, não sei quantas dezenas de milhares de tanques, de canhões, de navios. Eles vinham de uma crise com desemprego e puseram todo mundo a trabalhar.

E já desde a Primeira Guerra haviam descoberto o mecanismo para financiar as guerras. Os bônus surgiram com a Primeira Guerra Mundial. Venderam aos bancos, os bancos lhes entregavam o dinheiro disponível, davam-lhes a vantagem de uma capacidade maior de crédito, reduzindo a quantidade de dinheiro que deviam guardar como cobertura, pagavam juros por esses bônus.

Assim surgiu a guerra. Como a economia dos EUA sempre prosperou, os bônus não se desvalorizavam. Venciam, ganhavam juros, eram convertidos em dinheiro no caixa. As pessoas, assustadas, não queriam nem investir o dinheiro nas bolsas, colocavam suas poupanças em bônus porque tinham confiança.

O dólar era estável, tinha a garantia de moeda do Estado. A única razão pela qual se produzia inflação era porque as pessoas tinham mais dinheiro no bolso, mais demanda. Os investimentos em armas davam emprego ao povo e aumentavam os salários.

Como havia dinheiro suficiente na economia, tomavam emprestado, não confiscavam como Cavallo [o ex-ministro da Economia da Argentina, Domingos Cavallo]. Entregavam às pessoas uns papéis que rendiam juros, em troca de suas reservas, das famílias e das empresas. Havia muita confiança nesses papéis, nesses títulos de dívida pública, que depois iriam substituir o lastro-ouro sem abalar a economia norte-americana.

Na Segunda Guerra Mundial, os EUA tinham 80% do ouro do mundo porque ganharam o primeiro conflito sem seu território ser tocado. Tinham recursos naturais, indústrias, todo o alimento que quisessem. Vendiam, forneciam e prosperavam na guerra, que ajudava a economia.

E esta guerra atual, contra o Afeganistão?

Esta guerra, não. A quem você vai vender armas? Esta guerra não irá gerar consumo de armas, a não ser que não sejam armas norte-americanas.

Mas há reservas petroleiras no país, como circulam em alguns meios?

Não. Isso são invencionices.

Mas toda a família Bush é de origem petroleira e toda a administração Bush tem raízes no petróleo, não?

Sim, mas é uma guerra deflagrada por hegemonia, por mais poderio. Essa administração vem com uma forte dose de prepotência. Querem poder sobre o mundo. Eles sabem que........

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