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A esquerda vai reaparecer. Parte 1: o curto prazo

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22.06.2026

Esquerda, no singular, é a expressão simplificada da diversidade das esquerdas. Entendo por esquerda toda a resistência coletiva organizada contra a injustiça, a desigualdade e a discriminação sociais causadas pelas principais formas de dominação da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado. A resistência só é de esquerda quando é simultaneamente anticapitalista, antirracista e antissexista. Isto não impede que, dependendo dos contextos e conjunturas, um dado eixo da resistência seja mais urgente do que os outros, ou até que haja outros eixos de resistência igualmente urgentes. Na Índia, a esquerda será, além disso, anticastista. Em todas as regiões do mundo, será também antifundamentalista, antissenectista (discriminação contra os idosos) e anticapacitista (discriminação contra pessoas com deficiência).

A “esquerda” é apenas um dos nomes possíveis da resistência. É o nome mais comum no mundo político e cultural eurocêntrico, basicamente na Europa, nas “Europas fora do lugar” (Américas, Austrália e Nova Zelândia) e noutras regiões do mundo onde a cultura política eurocêntrica teve mais implantação. Noutros contextos políticos e noutras culturas, a resistência contra a desigualdade e a discriminação pode ter outros nomes. Isto significa que, quando faço o apelo “esquerdas do mundo, uni-vos!”, estou a fazer um apelo que implica a necessidade de tradução intercultural entre as várias práticas e as várias culturas de resistência contra a desigualdade e a discriminação modernas, qualquer que seja a sua designação.

Como diferentes classes sociais, povos ou grupos sociais sofrem injustiças diferentes e vivem essa experiência de modo diferente, a resistência contra a injustiça assume formas e intensidades diferentes. Por isso, mesmo dentro da mesma cultura, são diversas as práticas de resistência e, consequentemente, diversas as esquerdas.

O dilema das esquerdas modernas é que, sendo plurais, não podem nunca ser antagônicas entre si porque, se o forem, suicidam-se, e o seu suicídio significa sempre mais desigualdade social e mais discriminação social. Quando as ditaduras ou ditamoles (regimes políticos em que traços de democracia convivem com traços de ditadura) reprimem as políticas e os militantes de esquerda, são quase sempre golpes de misericórdia contra esquerdas que se foram suicidando através de lutas internas fratricidas. Antes da chegada de Hitler ao poder, os socialistas consideravam os comunistas como seus principais inimigos e, reciprocamente, os comunistas consideravam os socialistas como seus principais inimigos. Uma vez no poder, Hitler não viu nenhuma diferença entre eles, proibiu ambos e mandou assassinar muitos dos militantes de ambos os partidos.

Esquerda e os monstros

Em texto recente, argumentei que há uma tendência global para a direita tradicional ser absorvida pela extrema-direita e perguntei-me sobre o que isso significa para a esquerda. Sugeri que, tal como acontece na direita, há também que distinguir entre esquerda tradicional (dita moderada, liberal, social-democrática) e extrema-esquerda (dita revolucionária, comunista, anarquista). Recordo que entendo por extrema-esquerda toda a resistência contra a tríade capitalismo/colonialismo/patriarcado que não aceita a democracia liberal como instrumento de resistência, por entender que este tipo de democracia é o que legitima e sustenta a continuidade da tríade.

À luz do pensamento moderno linear dominante, o raciocínio óbvio é este: se a direita tradicional está a desaparecer, o mesmo está a suceder com a esquerda tradicional. Por isso, a opção política fundamental nos próximos tempos é entre extrema-esquerda e extrema-direita. E, se assim for, a situação é trágica para as esquerdas atuais porque, enquanto a extrema-direita está cada vez mais presente e agressiva, a extrema-esquerda ou não existe ou está vigente nas margens mais remotas dos processos políticos e mobiliza muito poucos seguidores.

Não é assim tão simples.

No período de interregno gramsciano em que nos encontramos, a velha democracia liberal está a morrer, mas ainda não morreu completamente, e o que se lhe seguirá ainda não emergiu completamente. Estamos, portanto, num momento em que abundam fenómenos mórbidos, se não mesmo monstros. Gabriel García Márquez escreveu um dia sobre a Colômbia que “esta encruzilhada de destinos construiu uma pátria densa e indecifrável onde o inverosímil é a única medida da realidade”. Penso que esta caracterização da Colômbia se aplica hoje a todo o mundo.

Vejamos alguns monstros contemporâneos.

A “maior democracia do mundo” (os EUA) promove sistematicamente golpes de Estado brandos e duros contra países com governos eleitos democraticamente e apoia activamente políticos de extrema-direita e as suas tácticas antidemocráticas (mentira, fake news, manipulação digital da opinião pública nas redes sociais, violência física e linchamento mediático contra políticos de esquerda e intelectuais críticos).

Duas corridas correm paralelas para destruir os valores democráticos que dizem defender.

A corrida aos armamentos para preparar uma nova guerra global em nome da defesa da paz global que os cidadãos não veem ameaçada por nenhum país hostil, seja ele a Rússia ou a China.

A corrida à manipulação da opinião pública e ao silenciamento das vozes dissidentes em nome da liberdade de expressão.

Quem defende a guerra nunca imagina morrer nela. A guerra é sempre a morte dos outros. Os “nossos soldados” é algo que temos, não é algo que somos.

Os políticos de extrema-direita abraçam-se à bandeira nacional e convencem milhões de cidadãos de que são os verdadeiros defensores da pátria, ao mesmo tempo que abertamente solicitam a intervenção de países estrangeiros nos negócios internos do seu país soberano.

O uso político da religião, sobretudo evangélica neopentecostal, legitima a concentração da riqueza e, com isso, o aumento da pobreza, ao mesmo tempo que conforta os pobres com a ideia de que a sua riqueza consiste na salvação depois da morte. Defende-se a pobreza, mas não os pobres, e a resignação destes é obtida pela riqueza que lhes está reservada depois da morte.

A extrema-direita usa o espaço que a agonizante democracia liberal lhe dá para normalizar o fascismo. Por um lado, relativiza os crimes fascistas do passado e, por outro, inculca a ideia de que é possível um fascismo de rosto humano.

Ao longo de décadas, foi-se construindo um forte movimento ecológico a nível global. A iminência do colapso ecológico tornou esse movimento irreversível e fez crescer a sua força. De repente, irrompeu a “iminente ameaça à paz mundial” e “a necessidade prioritária de os países se prepararem para a guerra”. A guerra no Médio Oriente, o sequestro do Presidente Nicolas Maduro e o assassinato da liderança suprema do Irão trouxeram à superfície a mãe de todas as lutas capitalistas: a luta pelo acesso livre (a baixo preço, expropriado ou roubado) aos recursos naturais. O petróleo e os seus derivados ficaram momentaneamente presos no estreito de........

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