Valores e identidade: o conservadorismo como força estruturante do voto
Impulsionado pela insegurança, pela religiosidade e pela centralidade das pautas comportamentais, o conservadorismo se consolida como eixo organizador da política no Brasil e redefine o comportamento eleitoral.
Este é o quinto artigo da série — Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas – como se decide o voto em um país sob tensão
Da insegurança à busca por ordem
A percepção de insegurança, analisada no artigo anterior desta série, não se refere apenas à violência. Ela se projeta sobre outros aspectos da vida social, produzindo uma demanda mais ampla por estabilidade, previsibilidade e pertencimento.
Em contextos marcados por incerteza econômica, desigualdade persistente e sensação de insegurança quanto ao dia de amanhã, cresce a adesão aos valores de ordem, autoridade e tradição. Esse movimento foi amplamente documentado por pesquisas comparativas como o World Values Survey, realizadas em diferentes países do mundo.
Nessa situação, a política deixa de ser estruturada predominantemente por variáveis econômicas e passa a incorporar, de forma central, disputas morais, culturais e identitárias.
Uma mudança que ultrapassa o Brasil
Essa adesão a valores conservadores de ordem, autoridade e tradição não é exclusiva do caso brasileiro. Ela se insere em um movimento mais amplo de reconfiguração política observado em diversas democracias, nas quais os princípios democráticos vêm perdendo credibilidade.
Levantamentos do Pew Research Center mostram que, em meados da década de 2020, em torno de 65% da população em mais de trinta países declararam insatisfação com o funcionamento da democracia, apenas cerca de 34% confiavam no governo, enquanto menos de 30% acreditavam ter influência nas decisões públicas.
Na América Latina, dados do Latinobarômetro indicam que cerca de 54% aceitariam um governo não democrático caso ele resolvesse seus problemas, enquanto a confiança nas instituições permaneceu baixa, na casa de 20%.
Ambientes que combinam frustração econômica, insegurança social e descrédito institucional vêm criando condições favoráveis à emergência de discursos que prometem ordem, proteção e clareza moral.
O caso brasileiro: valores em transformação
O avanço do conservadorismo é um fenômeno global que assume características regionais específicas e, no caso brasileiro, encontra condições que o tornam eixo estruturante do comportamento político. Pesquisas de opinião indicam que a dimensão moral ganhou centralidade no debate público.
Levantamentos do Datafolha e do Ipec mostram que mais da metade da população no país defende a presença de valores religiosos na política, enquanto cerca de 60% atribuem maior importância aos valores familiares do que às propostas econômicas.
Esse conjunto de dados revela uma tensão importante: a adesão formal à democracia convive com expectativas de ordem e eficácia que podem relativizar os princípios democráticos. A baixa confiança institucional, a frustração econômica e a alta percepção de insegurança são fatores que favorecem discursos políticos mais duros e simplificados, centrados em ordem, autoridade e valores tradicionais.
Religião e política: uma conexão estruturante
A dimensão religiosa é central para compreender o avanço do pensamento conservador no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com base no Censo Demográfico de 2022 (divulgado plenamente em 2024), indicam que os católicos ainda são predominantes, representando cerca de 56,7% da população, enquanto os evangélicos alcançam aproximadamente 26,9%, em trajetória de crescimento contínuo. Entre 1970 e 1990, o número de templos de igrejas pentecostais e neopentecostais passou de 1.049 para 17.033, evidenciando uma expansão acelerada que se mantém nas décadas seguintes — apenas em........
