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Trabalho, tempo e servidão: por que a escala 6x1 precisa acabar

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Nos últimos artigos, venho sustentando que o trabalho, no capitalismo contemporâneo, ultrapassou sua condição de atividade econômica para se converter em princípio organizador da vida social. Ele estrutura o tempo, define hierarquias, produz subjetividades e impõe limites cada vez mais estreitos à experiência humana fora da produção. É a partir dessa chave que a escala 6x1 deve ser compreendida e não como simples arranjo legal da jornada, mas como expressão cotidiana de uma forma de servidão socialmente naturalizada.

Trabalhar seis dias para descansar um. Viver à espera da folga. Organizar afetos, encontros, cuidados e projetos a partir do calendário do trabalho. A escala 6x1 não apenas organiza o emprego. Ela organiza a vida, subordinando o tempo social à lógica da produção e transformando o descanso em exceção.

Quando a servidão se apresenta como privilégio

Ricardo Antunes, professor da Unicamp, em O privilégio da servidão, oferece uma chave decisiva para compreender esse fenômeno. O capitalismo atual não se sustenta apenas pela exploração direta do trabalho, mas pela produção de uma subjetividade que aceita e internaliza essa exploração como normalidade.

Trabalhar demais passa a ser sinal de responsabilidade. Não reclamar, de maturidade. Ter emprego, qualquer emprego, converte-se em privilégio. A precariedade deixa de ser problema estrutural e passa a ser tratada como escolha individual. A servidão, agora, não se impõe apenas pela coerção, mas pelo convencimento.

A escala 6x1 se insere perfeitamente nesse imaginário. Ela exige disponibilidade quase total e oferece, em troca, a promessa da normalidade. Quem suporta a jornada é visto como “forte”. Quem........

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