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“Sabe aqueles cadáveres lá? Não faz autópsia”

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08.03.2026

EU: Sejam bem-vindos a mais um programa “Cessar-fogo”. O meu convidado de hoje é um cara incrível, é um intelectual, é um grande escritor, do qual eu tenho uma imensa inveja, ele já escreveu uns duzentos livros, né? Sobre palavras, sobre vários assuntos, e romances. O cara é incrível, o cara é inteligentíssimo, adoro falar com pessoas inteligentes. É o Deonísio da Silva. Cadê você, Deonísio?

DEONÍSIO: Alex querido e queridos espectadores, não apenas por rito, mas pelos vínculos que a gente tem ao longo da vida, de respeito e admiração mútuos. Você é um grande jornalista e eu gosto quando você se lembra de mim. A última vez que você se lembrou de mim foi no All TV, a gente fez um papo maravilhoso com o Marcos Barreiro.

EU: Juro que eu não lembrava disso. Na Alltv eu só me lembro da entrevista com o Zé Celso Martinez Corrêa, que foi uma entrevista maravilhosa. Claro, né? O programa em que eu conversei com você era aquele programa de manhã ou o plantão da meia-noite? Porque eu tinha dois programas, um de manhã e outro à noite. Bom, nesse programa da meia-noite, um ouvinte perguntou ao Zé Celso: “você é homossexual?” “Eu sou um homem sexual”, ele respondeu. E acrescentou que era apaixonado pelo Geraldo Alckmin. “Mas eu sei que o meu amor não será correspondido”, completou.

DEONÍSIO: É, a paixão é patológica.

EU: Mas, Deonísio, você escreveu uns duzentos livros, eu sei, mas hoje o nosso foco é sobre um... não sei, talvez o romance mais importante, mais lindo, que é sobre um episódio, até hoje, misterioso, a morte de Stefan Zweig e de sua mulher durante o Estado Novo, que envolve nazismo, Getúlio, um escritor incrível que foi Stefan Zweig. Cada vez que eu leio Stefan Zweig, também tenho inveja dele. Por que eu não escrevo assim como ele? O cara escreve e parece que caem do céu aquelas palavras.

Então, me conta, por que você escreveu esse livro?

DEONÍSIO: Alex, a gente sempre escreve por motivos obscuros para nós mesmos. Talvez a gente tivesse que perguntar a outro por que eu escrevi esse livro. Mas eu não vou fugir da sua pergunta. Desde menino, eu ouvia falar, eu sou filho de operários das minas de carvão de Santa Catarina, meu pai saiu do meio rural e foi para o meio urbano, onde eu nasci, em Siderópolis, que tinha a Companhia Siderúrgica Nacional para ele trabalhar lá. Foi por isso que nasci em Siderópolis e por isso que sou catarinense, porque sou uma ilha catarinense rodeada de gaúchos por todos os lados. São gaúchos, minha mulher é gaúcha, minha filha é gaúcha. Então, eu sempre ouvia falar dessas coisas da Segunda Guerra Mundial, que já tinham acontecido quando eu nasci. Eu sou de 1948, eu estou na idade dos dois martelos este ano. E daí minha mãe teve vocação para EU ser padre, me pôs num seminário e lá eu tive uma educação bem cuidada. E eram padres alemães e alguns faziam sérias restrições ao Stefan Zweig e outros faziam sérios louvores ao Stefan Zweig. Ele não era um escritor que deixava as pessoas indiferentes. E ele tinha se suicidado, é a versão que pegou, junto com a mulher, mais de seis anos antes de eu nascer. Então, no ano de 2012 eu publiquei, enfim, depois de escritor consolidado. Não sei se a gente pode dizer de algum escritor no Brasil isso, né?

EU: Óbvio que você é um escritor mais que consolidado! 

DEONÍSIO: Mas, então, eu cheguei ao Stefan Zweig em 2012, e ele foi antecedido de muitas visitas a Petrópolis, à casa onde eles viveram, já tinha naturalmente lido algumas biografias, sobretudo a que o Alberto Dines fez, o meu amigo Alberto Dines, que fez... o “Morte no Paraíso”, que é um título fantástico, “Morte no Paraíso”. 

As pessoas se esquecem de que Caim matou Abel no paraíso, estava ali nas cercanias. Essas mitologias são, de qualquer ponto de vista, sempre fascinantes. Mas então, para eu não ficar aqui um latifundiário nas respostas, a gente conversar com a reforma agrária da palavra, eu queria te dizer que eu sempre fiquei inconformado, me parecia muito arrumadinho aquele duplo suicídio, muito arrumadinho, e a vida não é arrumadinha, a vida é completamente desarrumada. A gente nunca sabe, ao amanhecer, o que será daquele dia, ainda mais para mim vivendo há mais de vinte anos aqui no Rio de Janeiro. Então, eu comecei a bisbilhotar coisas, além dos livros, na internet, porque hoje há uma verdadeira mina de ouro. É também uma mina que, às vezes, para quem gosta é melhor do que arroz com bosta, porque tem de tudo na internet. Mas descobri um seminário de uma pessoa da qual eu ouvia falar e não a conhecia, que veio a tornar-se meu amigo por causa disso, que foi o Jacob Pinheiro Goldberg.

EU: Ele também é um grande poeta. Mais conhecido comopoeta no exterior do que no Brasil.

DEONÍSIO: Nesse seminário, no ano de 2000 na USP, ele e uma professora da Stanford University, na época, a Marilia Librandi, diziam que havia sérias questões sobre se tinha havido mesmo o duplo suicídio. E, no final, eles........

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