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"Não vamos aceitar que matamos JK"

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08.06.2026

“Eu tenho quase certeza de que aquela decisão da Comissão Nacional da Verdade, de assumir que JK morreu num acidente, foi o dedo desses radicais dentro das Forças Armadas, que disseram: ‘Até vocês dizerem que a gente mata terrorista, mata guerrilheiro, a gente aceita, mas dizer que nós matamos um ex-presidente da República, nós não vamos aceitar’. Aí puseram medo, e a Comissão Nacional e o establishment político da época não tiveram coragem de colocar a verdade na praça". Em entrevista ao programa “Cessar-fogo”, da TV 247, o ex-presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, Gilberto Natalini, conta que a comunidade de informações está ativa e sonha com a volta da ditadura.

EU: Como é que vocês chegaram à conclusão de que JK morreu num atentado?

NATALINI: Olha, nós estudamos muito o caso, investigamos bastante, quase que praticamente durante dois anos. A Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, que eu tive a honra de presidir, quer dizer, existiu uma primeira comissão em 2012, presidida pelo vereador Ítalo Cardoso, da qual eu fui vice-presidente. Quando encerrou o prazo daquela comissão, eu propus uma nova reedição da Comissão Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, e aí, normalmente, quem propõe é quem preside. Então, eu fiquei presidente com mais seis vereadores, éramos sete vereadores. E eu busquei o Ivo Patarra, um jornalista investigativo que você conhece, muito combativo, para nos assessorar na comissão. E a comissão fez um estudo grande sobre vários aspectos.

EU: O depoimento que mais me impressionou foi o do ex-agente do SNI e do DOI-CODI Cláudio Antônio Guerra. Você foi até o Espírito Santo para falar com ele?

NATALINI: Até Cariacica. Eu o entrevistei por mais de quatro horas na casa dele. E, no final, foi muito interessante, porque ele... Ele nos disse que estava arrependido do que tinha feito. E ele fez barbaridades, brutalidades enormes a serviço da ditadura. E, no final, ele me disse: “Natalini, eu não quero que você me perdoe, eu não quero que ninguém me perdoe, eu não quero que Deus me perdoe. Eu só quero eu mesmo me perdoar pela maldade que eu fiz na minha vida anterior, na minha vida antepassada”. Aquilo me marcou muito, porque ele estava procurando o próprio perdão para as loucuras que ele fez para o regime militar. Era uma coisa impressionante. Mas nós tivemos o depoimento do Carlos Heitor Cony, nós tivemos o depoimento do próprio motorista da Cometa, o Josias. Nós tivemos o depoimento do doutor Paulo Oliver, que era um advogado que estava sentado no primeiro banco do ônibus da Cometa, que disse que o ônibus não bateu com o carro, não teve batida nenhuma. O carro passou, e o acidente não dependeu do ônibus. Então, foram muitos depoimentos que a gente teve para chegar à conclusão daqueles 114 quesitos que estão lá no capítulo cinco do nosso relatório da Comissão da Verdade, que é sobre Juscelino Kubitschek. E a gente levantou 114 quesitos de suspeitas, indícios e provas de que Juscelino não havia sofrido um acidente. Nós somos a primeira comissão do Brasil, a primeira voz do Brasil, que lançou um relatório dizendo que Juscelino tinha tido morte matada, e não morte morrida. E depois, em seguida, fomos confirmados com outros relatórios, como os da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, da Assembleia Legislativa, e o relatório da Comissão da Assembleia de Minas Gerais, que também chegaram à mesma conclusão. Aí nós pegamos o resultado do nosso relatório e mandamos para a Comissão Nacional da Verdade. Na época existia a Comissão Nacional da Verdade, só que a Comissão Nacional da Verdade teve um entendimento contrário ao nosso. Eles desautorizaram a nossa tese de assassinato e replicaram a tese de acidente que já tinha sido defendida pelos peritos da época da ditadura, do Instituto Carlos Éboli e da polícia da época, que criaram essa narrativa de acidente. Depois, essa narrativa foi confirmada por uma comissão que foi reaberta em 1996, a pedido de Serafim Jardim, que era secretário particular do Juscelino. E depois, no ano 2000, uma comissão externa da Câmara Federal também estudou o caso e, com base nos mesmos laudos, dos mesmos peritos que fraudaram os laudos, que inventaram coisas, que esconderam provas, essa comissão externa também concluiu que Juscelino tinha morrido num acidente. Fomos nós, aqui em São Paulo, na Comissão da Verdade da Câmara, os primeiros a dizer não. Nós já estamos aqui com as provas, a morte foi provocada por um atentado político que ele sofreu na Dutra. Isso está sendo confirmado agora, depois de 50 anos, pela Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério dos Direitos Humanos da área federal, que concordou com a nossa tese. Você sabe que o Sérgio Ejzenberg é um dos maiores peritos de trânsito do Brasil. E ele fez um estudo a pedido de um promotor de Resende, em 2019. Ele fez um estudo detalhadíssimo sobre... O estilo do carro, do sinistro com o carro. E ele mostrou, em 200 páginas de um laudo altamente científico, que aquilo não se tratou de um acidente. Tratou-se de uma coisa provocada, algum problema no carro ou no motorista. Com base nesse laudo, eu e o Ivo Patarra oficiamos a Comissão de Mortos e Desaparecidos, enviamos o laudo e pedimos para que eles estudassem aquele laudo para mudar a versão oficial da morte do Juscelino. Isso foi em 2024. E agora, em 2026, sai o resultado da comissão com seis votos a favor e uma abstenção, comprovando a nossa tese que nós levantamos em 2013, mudando a história do Brasil, com o governo federal aceitando que houve um atentado contra Juscelino.

EU: O que aconteceu no dia 22 de agosto de 1976, no carro Opala, dirigido por um motorista com 30 anos de profissão a serviço de JK?

NATALINI: Juscelino e Geraldo Ribeiro iam de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro. No meio do caminho, eles pararam, no quilômetro 165, no Hotel Fazenda Villa-Forte. Não se sabe bem o que aconteceu no Hotel Fazenda Villa-Forte. O que se sabe é que o Juscelino teria uma reunião com dois emissários do ditador da época, Ernesto Geisel. O Juscelino, evidentemente, estava lutando pelo fim da ditadura, e, supostamente, dois emissários, dois generais, queriam conversar com........

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