José Mourinho nunca foi personagem
O principal erro está naquilo que muitos entendem por sinceridade. Durante mais de duas décadas muitos perguntaram quem era Mourinho por detrás de Mourinho. Quem existia para lá do Special One, que correu pela linha lateral em Old Trafford, que arrebatou troféus e competições, que transformou conferências de imprensa em combates e temporadas inteiras em batalhas com todos aqueles que atravessassem o seu caminho. A pergunta sempre partiu de uma certeza: aquilo não podia ser tudo. Tinha de existir outro Mourinho. E existe.
O documentário da Netflix, que estreou esta semana, deixa-o aparecer algumas vezes. Está lá quando fala do pai e a voz muda. Está nos silêncios, em certas memórias, na consciência das ausências. Está até na dura e extraordinária admissão de que a família provavelmente se diverte mais quando ele não está.
Mourinho sabe. Sabe o que ganhou e o que perdeu. Sabe o que futebol lhe exigiu. Sabe que uma vida construída em torno de uma profissão deixa inevitavelmente outras vidas à espera. A diferença é que Mourinho não parece considerar que nos deva mais do essa admissão. E talvez seja esse o problema. Não para ele. Mas para quem vê.
Vivemos numa época que transformou a exposição numa prova de autenticidade. Já não basta sentir. É preciso mostrar que sentimos. Não basta sofrer. É necessário explicar o sofrimento. Não basta ter fragilidades. Espera-se que as identifiquemos, que falemos sobre elas, que as partilhemos e, de preferência, que exista uma câmara por perto quando o fazemos.
Criámos uma estranha equivalência entre vulnerabilidade e verdade. Quem se expõe é autêntico. Quem se protege está a representar. Mourinho recusa essa lógica. Não porque seja incapaz de sentir, mas porque acredita numa ideia que se tornou quase........
