Criticar de barriga cheia
Portugal terminou a digressão pelo continente americano com mais uns pontos no ranking FIFA, um cachet para os cofres da Federação Portuguesa de Futebol e zero ideias novas para implementar no Mundial.
Surpreendente seria o contrário. É preciso lembrar que nesta fase da época, das grandes decisões, os jogadores tentam proteger-se e estão focados nas suas competições internas e continentais, a ponto de alguns conseguirem uma dispensa para descanso das pernas e da mente.
São legítimas e aceitáveis as críticas à falta de algo verdadeiramente palpável por parte de Roberto Martínez nos jogos frente a México e Estados Unidos, mas estas são as queixas de quem tem a barriga cheia. É preciso ter memória para nos lembrarmos como há uns anos os portugueses viviam estas datas FIFA: de faca nos dentes, disputando play-off carregados de drama. Foram escritas páginas douradas, como por exemplo aquele célebre hat trick de Cristiano Ronaldo na Suécia em novembro de 2013, mas seria um feito evitável se Portugal se tivesse qualificado diretamente para o Mundial 2014.
Se há sinal de que algo verdadeiramente mudou na relação com a Seleção é este: a crítica é proporcional à qualidade. Há 15 anos, com estes resultados, Martínez estaria muito perto de ser uma personalidade consensual; hoje, tem dias. Se for aquele que tática e estrategicamente colocou Portugal a superiorizar-se a Alemanha e Espanha na Final Four da Liga das Nações, é encarado como o homem certo para conduzir a nau rumo ao cetro mundial; mas se for o que vacila na escolha de um jogador como Paulinho (bastava ter optado por uma comunicação diferente e escusava de ser acusado de incoerente), emerge novamente a desconfiança em torno do trabalho do técnico espanhol e do seu futuro. Tudo normal, afinal isto é transversal a todas as seleções, nem o campeão do mundo em título, Lionel Scaloni, ou o campeão da Europa, Luis de la Fuente, escapam ao escrutínio feroz das respetivas opiniões públicas.
É bom que por estas bandas isto se mantenha assim: discussões feitas pelo alto. Porque os mais velhos certamente se recordam do que era ver uma Itália a lutar por títulos enquanto em Portugal os adeptos tinham de adotar uma seleção por quem torcer (Brasil, Argentina, a própria Itália). Os papéis agora inverteram-se, só falta elevar o nível de excelência construído com muito trabalho. E, acima de tudo, não estragá-lo.
