A Europa, o mundo e o Dia Mundial do Livro. Por Rui Couceiro
Muitos dirão amor, alguns excitação, outros prazer, haverá quem diga paz ou calma e muitas mais hipóteses surgirão, várias delas interligadas ou conducentes a outras sensações ou outros estados. Eu, como coisa que mais gosto de sentir, elejo o entusiasmo. Na origem grega, entusiasmo significa inspiração divina – e como não adorar a fervilhante vontade de agir que tal bênção instala em nós? Para quem é um pouco como Erasmo de Roterdão, que gastava todo o dinheiro nas livrarias e só depois pensava em necessidades como a comida ou a roupa, poucas coisas entusiasmam tanto quanto comprar livros. Na procura e, sobretudo, na descoberta de novas leituras, não só antecipamos como começamos já a sentir o entusiasmo que vai tomar conta de nós quando começarmos a ler a obra que, naquele momento, nos atrai. E isso dá-se porque poucas coisas satisfazem tanto como ler um bom livro. Acontece-nos o mesmo com as viagens, por isso se diz amiúde que planear férias pode chegar a ser melhor do que vivê-las. Com os livros, por vezes, sucede comprarmos e lermos vários, até encontrarmos aqueles que parecem ter sido escritos para nós – obras e autores que nos falam ao ouvido, como se nos conhecessem, e que nos oferecem tão perfeitamente aquilo que apreciamos, que não queremos experimentar mais nada, ou então que nos mostram aquilo de que ainda não sabíamos que gostávamos, mas que passa a ser fundamental para nós. Com a música, por exemplo, acontece o mesmo e ainda bem que a experiência humana tem destas coisas: mesmo que uns se dediquem a estragar o mundo, com ódios e guerras, há sempre gente a criar coisas que melhoram a vida de outras pessoas. Não sendo porventura capazes de salvar o mundo, os livros são das mais extraordinárias criações de sempre, porque podem melhorar a vida de muitas pessoas por pouco dinheiro e durante vários séculos. Basta que pensemos na obra de Shakespeare, ou, dando agora um dos exemplos que mais me apaixonam, em Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, que há mais de 400 anos demonstra a quem o lê por que motivos a literatura e a ficção literária, em concreto, podem ser tão maravilhosas.
Livros assim não só seduzem, mas também enfeitiçam e arrebatam. Hospedam nos leitores um entusiasmo que os faz desejar voltar a eles a todo o instante, quando se veem obrigados a parar a leitura para se entregarem a todas as inoportunas obrigações quotidianas – ou, se preferirmos, a quaisquer atos que não continuar a lê-los. A isso, há 120 anos, referindo-se aos dias passados na infância com um livro preferido, Proust chamou prazer divino. É certo que, à época, os outros atrativos eram muito distintos da criminosa concorrência digital, baseada em algoritmos construídos para viciar, que hoje os livros enfrentam na vida de uma criança e que leva o neurocientista Michel Desmurget a alertar-nos para o facto de estarmos a criar as primeiras gerações menos desenvolvidas do ponto de vista cognitivo do que os próprios pais. É também por isso, e não é nada pouco, que vale a pena assinalar o Dia Mundial do Livro e celebrar a leitura.
Em 2026, a comemoração ganha especial importância porque, em certas geografias, parece ter havido gente a viajar no tempo. E o que direi não cheira a ficção científica, mas sim a ficção histórica: há um país que voltou a proibir livros – coisa que, já no longínquo ano de 1763, no livro Carta Sobre o Comércio dos Livros, Diderot afirmava abominar e considerava “uma contradição estranhíssima”. Mas, de facto, os nossos dias parecem regidos por gente vinda dos atrasos de outras épocas. No ensaio Esse Vício Ainda Impune, de 2006, o crítico literário Michel Crépu já dizia, sem saber que tais palavras fariam ainda mais sentido 20 anos depois, que éramos guiados por “um exército de patetas radiantes de estupidez e de uma ambição feroz”, “imbecis (…) reconhecíveis pelo mau gosto, pela incapacidade de usarem com bom senso e justeza o poder de que gozam”. Este parece um texto escrito a propósito do mundo de hoje, razão pela qual, além de fonte de entusiasmo e prazer, ler será também, e cada vez mais, um imprescindível ato político. Ler para se saber mais, para se pensar melhor, para se ser livre e capaz de recusar o retrocesso. O que, naturalmente, perante medidas proibicionistas adotadas na maior potência global, só reforça a importância deste Dia Mundial do Livro. Obras de autores como Gabriel García Márquez, Toni Morrison, George Orwell ou Margaret Atwood, ou seja, algumas das mais importantes da história da literatura do último século, foram proibidas em escolas e estados americanos. Até certos volumes de Harry Potter, que tanto fez pela imaginação de tantas crianças e jovens, foram retirados de bibliotecas escolares daquele país.
O PEN America, que se dedica “a proteger o poder das palavras” e a “liberdade de escrita”, tem alertado para a banalização da proibição de livros – ou da censura, se preferirmos – nos Estados Unidos. Num relatório divulgado em outubro de 2025, refere-se de modo claro à “preocupante normalização” desse tipo de medidas nas escolas norte-americanas. Não é para menos: desde 2021, o PEN detetou mais de 23 mil casos de proibição de livros em 45 dos 50 estados que compõem o país e em 451 agrupamentos escolares. A Flórida, o Texas e o Tennessee são os estados que mais livros censuram e uma das responsáveis do PEN, Sabrina Baêta, considera que nenhuma biblioteca ficará imune às proibições e que, “com a Casa Branca de Trump também a promover agora uma clara cultura de censura, os nossos princípios fundamentais de liberdade de expressão, investigação aberta e acesso a livros diversos e inclusivos estão seriamente em risco”. Para Baêta, as proibições de livros não só “inibem a liberdade de leitura e restringem os direitos dos alunos de aceder à informação e de ler livremente”, como “constituem um obstáculo a um mundo mais justo, informado e com mais igualdade”.
É igualmente nesse país que estão sediadas as cinco maiores empresas de Inteligência Artificial do mundo e importa falar do assunto, visto que o Dia Mundial do Livro é também o Dia Mundial dos Direitos de Autor. Tais empresas, através do chamado “text and data mining”, isto é, de colossal pesquisa de informação feita para treinarem e alimentarem as suas ferramentas, como o famoso ChatGPT, reutilizam de modo abusivo material criado por outrem, sem respeito pela propriedade intelectual e pelo direito autoral. Isto acontece ainda que os autores possam opor-se à utilização, embora ninguém saiba muito bem como. Não só não há forma clara de optar por não permitir que a IA utilize o que um autor criou, como não há controlo nem fiscalização e muito menos um sistema de pagamento aos autores.
A nação que ergueu uma estátua à liberdade e fez dela símbolo nacional enfrenta uma gravíssima crise de identidade. Obcecado pelo belicismo, regido pela mentira e pelo mais chocante egoísmo económico, o Presidente do país demonstra a cada intervenção pública, e sem disso ter noção, qual deverá ser o papel da Europa no mundo atual. Poderão dizer-me que de nada valem palavras contra canhões, mas foram sempre as ideias e o diálogo a acabar com as guerras. Com a sua matriz humanista, um ideal orientador baseado na razão, na igualdade e nos direitos humanos, caberá à Europa assumir um papel de interventiva rejeição e condenação do retrocesso para o qual temos sido conduzidos, baseando-a no conhecimento histórico-social e filosófico-moral. A afirmação de tal postura conduzirá sempre, porque neles baseada, à valorização do livro e da leitura. Aliás, num texto em que, não por acaso, citei tantos franceses, vale a pena dizer que a ideia do Dia Mundial do Livro partiu de Espanha, que já há muito celebrava o livro através do famoso Sant Jordi, que leva livros e leitores para as ruas, no Dia de São Jorge, que é também o dia da morte de Cervantes (e de Shakespeare). Em 1995, a UNESCO aprovou a proposta espanhola de que 23 de abril passasse a ser uma celebração global da maravilha que, enquanto grandes promotores do conhecimento e da empatia, o livro e a leitura representam. Foi uma boa ideia. Saibamos continuar a honrá-la e engrandecê-la. Só fará bem ao mundo.
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