A IA pode aumentar a produtividade. A questão é quem fica com os ganhos
Há uma coisa que mudou no trabalho e que ainda ninguém diz em voz alta: há gente com medo. Não do cenário de ficção científica, das máquinas conscientes que decidem acabar connosco — isso fica bem num filme, não numa conversa de café com um colega. O medo real é mais aborrecido do que isso. É abrir o email de manhã e ver uma convocatória do departamento de recursos humanos na caixa de entrada. É ouvir a palavra “reestruturação” outra vez. É a equipa que há seis meses parecia intocável e que já não existe. É saber que aquela tarefa que se fazia há três anos agora é feita por uma ferramenta que custa uma fração do salário. E é olhar para o colega despedido e pensar — sem dizer a ninguém, claro — quando será a sua vez.
Não sei quantos dos despedimentos de que ouvimos falar são mesmo culpa da Inteligência Artificial. Contrataram-se pessoas a mais em 2021, as vendas caem, os custos têm de baixar, reorganiza-se a empresa — a IA aparece muitas vezes só como mais um ingrediente numa transformação que já vinha a acontecer por outras razões. Seria cómodo usar essa confusão toda como desculpa para não olhar de frente para o problema. Mas já há empresas a fazer o mesmo trabalho com menos gente, e isto não é uma previsão para daqui a dez anos: está a acontecer agora, neste trimestre.
Quando uma administração percebe que consegue produzir o mesmo com uma equipa mais pequena, há uma escolha a fazer. Pode usar esse ganho para crescer, investir, pagar melhor, encurtar horários. Ou pode simplesmente despedir. A tecnologia não escolhe — quem escolhe é gente com nome e apelido, sentada numa sala de reuniões.
É mais fácil dizer “os empregos vão desaparecer” do que perguntar o que fazemos com a produtividade que sobra quando uma tarefa deixa de ser precisa. A primeira frase soa a fatalidade, quase a meteorologia. A segunda obriga a falar de dinheiro, de poder, de quem manda numa empresa — e isso já ninguém gosta tanto de discutir.
Durante muito tempo, acreditou-se que a tecnologia acabaria por libertar as pessoas de parte do trabalho. Produzir mais em menos tempo devia significar melhores salários, mais tempo livre, jornadas mais curtas. E durante uns bons anos foi mais ou menos isso que aconteceu: trabalhámos menos horas do que os nossos avós, e eles menos do que os pais deles. A pergunta é se ainda queremos continuar essa história ou........
