Um lastro de sangue e a esperança por um fio
Tenho 18 anos. Sou rapaz. Sou branco. A minha família é de classe média baixa. Estas são, em larga medida, as características médias dos rapazes que aderem ao discurso red pill, nome dado à crença de que a sociedade moderna é tendencialmente contra os homens e que, por isso, estes devem impor-se e recuperar o seu lugar dominante. Conteúdos deste tipo viralizam entre jovens rapazes, sobretudo entre a geração Z. Para perceber este fenómeno é preciso olhar para o mundo em que a minha geração cresceu.
Comecemos por reconhecer um facto incontornável. As últimas décadas trouxeram avanços sociais profundos. As lutas feministas conquistaram direitos historicamente negados às mulheres e os movimentos LGBTQ conquistaram visibilidade e proteção legal. Aquilo que durante muito tempo foi silenciado passou a fazer parte do debate público. Estes avanços são uma conquista civilizacional.
Mas também produziram uma reação. Muitos jovens rapazes cresceram num mundo em rápida transformação sem que lhes fosse oferecido um novo lugar claro nesse mesmo mundo. Durante séculos, o patriarcado ofereceu aos homens um guião simples. Autoridade, centralidade e domínio social. Esse guião está hoje em crise, e ainda bem. Mas quando um modelo desaparece sem ser substituído por outro, abre-se um vazio. É nesse vazio que a manosfera prospera.
O discurso red pill apresenta-se como uma resposta fácil para jovens que sentem frustração, solidão ou perda de estatuto. Promete devolver-lhes um lugar no topo de uma hierarquia........
