A arma de Ormuz. Opinião de Miguel Baumgartner
Durante décadas, o Ocidente acreditou que a principal ameaça estratégica do Irão estava escondida nas profundezas das instalações nucleares de Natanz, Fordow ou Arak. A guerra recente obrigou-nos a olhar para outro lugar. A verdadeira arma iraniana não está enterrada sob montanhas nem protegida por betão armado. Flutua à superfície das águas do golfo Pérsico. Chama-se estreito de Ormuz.
Foi essa a grande conclusão estratégica dos últimos meses e, provavelmente, a razão pela qual o memorando de entendimento entre Washington e Teerão estava condenado desde o primeiro dia.
O mundo assistiu ao acordo como quem observa o início de uma descompressão. Os mercados reagiram positivamente. O preço da energia estabilizou. As bolsas recuperaram parte das perdas. As seguradoras marítimas reduziram os prémios de risco. A sensação geral era a de que a crise tinha entrado numa fase de controlo.
Mas aquilo que existia nunca foi paz.
O memorando não nasceu para resolver o conflito entre os EUA e o Irão. Nasceu para gerir as suas consequências imediatas. Foi uma ferramenta de estabilização, não uma solução política. Serviu para ganhar tempo, acalmar os mercados e evitar que uma guerra regional se transformasse numa crise económica global.
Em muitos aspetos, cumpriu esse objetivo. Os EUA conseguiram apresentar uma pausa estratégica após uma campanha militar que pretendiam transformar numa vitória política. O Irão conseguiu aliviar parte da pressão económica e alimentar a expectativa de que o levantamento das sanções pudesse abrir uma nova etapa. Os mercados obtiveram aquilo que mais valorizam: previsibilidade.
O problema é que os interesses fundamentais de ambas as partes nunca mudaram.
As divergências concentravam-se sobretudo em dois pontos. O primeiro era o artigo 5º, relacionado com o estreito de Ormuz. O........
