Um Presidente no comboio da crise climática
Pela primeira vez na democracia portuguesa, um Presidente da República foi eleito no meio de uma crise climática severa, sem paralelo recente na História. Portugal escolheu o seu novo Chefe de Estado enquanto o País era atravessado por um comboio de tempestades, classificação usada pelas Nações Unidas para descrever a sucessão encadeada de sistemas extremos ainda ativos no território. A eleição não aconteceu apesar da crise, aconteceu dentro dela.
A vitória de António José Seguro não resolve, por si só, os impasses da transição climática. Em Portugal, a Presidência da República não define nem executa políticas públicas setoriais, incluindo medidas de adaptação ou descarbonização. Essas competências pertencem ao Governo e à maioria parlamentar que o sustenta. A Constituição atribui, contudo, ao Presidente um papel determinante na gestão política e institucional de crises, designadamente na declaração e na legitimação dos estados de emergência e na condução simbólica do País em momentos críticos.
Quando o tempo político e o tempo climático se alinham
Projeções do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas da ONU (IPCC) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que os próximos cinco anos deverão situar-se entre os mais quentes já registados, com elevada probabilidade de novas ultrapassagens temporárias do limiar de 1,5°C e intensificação de eventos extremos. É neste ponto que o tempo político e o tempo climático se alinham. O Presidente assume funções num contexto de crise climática já instalada e num horizonte temporal em que, segundo a Ciência, o risco tende a agravar-se ao longo dos próximos cinco........
