Importa, afinal, o que somos?
Há momentos na vida em que uma música nos encontra antes de percebermos porquê. Foi isso que me aconteceu ao ouvir Matilda, de Harry Styles. Não tanto pela história que conta, mas pela pergunta que deixou a ecoar em mim: em que momento começámos a acreditar que o nosso valor depende daquilo que fazemos, conquistamos ou mostramos aos outros?
Esta aprendizagem começa muito antes do que imaginamos. Ainda em crianças, perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes. A pergunta parece inocente, mas carrega uma ideia curiosa: não nos perguntam quem somos, o que nos desperta curiosidade, o que nos entusiasma ou que mundo gostaríamos de ajudar a construir. Perguntam-nos o que queremos vir a ser – profissionalmente –, como se a nossa identidade estivesse sempre projetada para um futuro onde, finalmente, seremos “bons o suficiente”.
Anos mais tarde, o foco orienta-se para as notas, os exames, a universidade, o curso “com saída”, o primeiro emprego, a estabilidade, o salário, o cargo, o reconhecimento. Nada disto é mau. Torna-se nocivo quando deixamos de distinguir aquilo que fazemos daquilo que somos – quando o sucesso deixa de ser consequência do nosso percurso para passar a ser a medida do nosso valor.
É por isso que, quando um/a jovem escolhe um curso, a primeira pergunta continua a ser quase sempre a mesma: “Mas isso tem saída?” Vivemos num tempo em que a estabilidade económica importa, e essa preocupação........
