O quarto das criadas e a fábrica de fazer pobres
A porta quase passa despercebida na parede ao lado do lavatório de mármore. Pequena, de madeira pintada de um cinzento muito claro. É preciso alçar a perna para a atravessar e chegar a umas escadas de madeira estreitas e íngremes. Lá em cima, no sótão insuportavelmente quente no verão ribatejano, no lugar onde estavam sempre espalhadas ratoeiras pelo chão, ficava o quarto das criadas na casa dos meus bisavós. Também havia um sótão gelado no inverno e sufocante no verão onde dormiam as empregadas em casa dos meus avós paternos. E na casa dos meus avós maternos, a divisão, mais simpática, com janela e casa de banho, ao fundo de um corredor que a ligava à cozinha, já se tinha transformado há muito num quarto de costura quando eu nasci. No tempo em que eu vim ao mundo, deixou de ser normal ter criadas. E isso, por muita nostalgia que alguns privilegiados pudessem ter de outros tempos, foi uma grande conquista da liberdade e do progresso. Significava que o trabalho tinha ficado mais caro.
Há uns tempos, ouvi uma amiga brasileira, com dois filhos pequenos, queixar-se candidamente de que aqui é impossível arranjar ajuda. “No Brasil é mais fácil porque há muita desigualdade.” E basta percorrer o mapa do mundo de sul para norte para perceber que, à medida que se avança para geografias onde o preço do trabalho é mais alto, é menos comum ter empregados domésticos.
No tempo dos meus avós, dizia-se “criadas” e o termo era cruelmente verdadeiro, porque eram quase sempre meninas que vinham para a casa dos patrões ainda por criar, tantas vezes ajudando a tratar de outras crianças. Conheço uma, hoje quase nonagenária, que começou a trabalhar aos 7 anos,........
