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A imaginação é subversiva. Imaginem! Crónica de Margarida Davim

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19.06.2026

“Eu sou a mãe, tu és o pai e este é o nosso filho”, diz ela apontando para um boneco. “Eu quero ser o bebé”, responde ele. “Então, eu sou o cão”, contrapõe ela. “Se tu és o cão, eu quero ser um professor e isto é uma escola de dança”, negoceia ele. Andam nisto um bocado, mudando as voltas às coisas, até acertarem numa combinação qualquer, mais choro, menos choro, cada um tentando levar a sua avante. Começam, então, a construir o mundo. Arrastam almofadas para servir de paredes ou camas. Há cadeiras que se transformam em muros ou carros. Cozinhas que nascem no chão com panelas e comida de plástico e madeira espalhada. Animais de estimação de peluche. Mantas que são uma piscina ou areia. “Aqui é a minha casa, tu moras ali.” Às vezes, chove na sala. Outras vezes, a noite passa em menos de dois minutos deitados, com ressonares teatrais e acaba com o grito: “Já é de dia.”

Isto não vai durar muito tempo. Nunca dura. E não estou a referir-me aos minutos que passam até a brincadeira descambar numa troca de acusações mútuas sobre qual dos dois não seguiu bem as regras ou qual deles quer sempre mandar em tudo. São tão curtos os anos em que nos reinventamos. Tão breve o tempo em que o mundo é plástico, completamente moldável aos nossos desejos. Tão fugaz a infância feita de liberdade, experiências e imaginação. A partir daqui, começam as fronteiras. Quem somos?, perguntamo-nos. E respondemos com a ansiedade de quem se tacteia, tentando encaixar-se num molde. A adolescência é o tempo das tribos. A rebeldia não se conjuga necessariamente com a imaginação. Às vezes, só queremos mesmo ser invisíveis, tão iguais quanto possível na diferença de que nos apropriamos.

Depois, a vida encaminha-nos para uma caixa qualquer. Não é uma caixa estável. E é por isso que nos sentimos adolescentes até cada vez mais tarde. Não pelo prazer da descoberta, mas pela turbulência em que navegamos. Somos tão precários que nos parece impossível sermos adultos. Teremos crescido realmente?,........

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