Quem ficará em Portugal?
Portugal enfrenta uma das mais profundas transformações demográficas da sua história contemporânea. Segundo projeções da OCDE, o País poderá perder cerca de 600 mil habitantes até 2050, enquanto a população com mais de 65 anos deverá aumentar em mais de 800 mil pessoas, representando aproximadamente 35% do total nacional.
A mesma organização identifica o envelhecimento populacional e a escassez de trabalhadores como alguns dos principais fatores suscetíveis de condicionar o crescimento económico português nas próximas décadas. Perante este cenário, uma conclusão impõe-se: Portugal necessita de pessoas. Necessita de trabalhadores, contribuintes, empreendedores e famílias capazes de sustentar uma economia confrontada com uma acelerada mudança demográfica.
É precisamente neste contexto que emerge uma das contradições mais relevantes do País contemporâneo. Portugal conseguiu afirmar-se como destino para milhares de estrangeiros sem ter resolvido plenamente alguns dos fatores que, durante décadas, levaram os próprios portugueses a procurar oportunidades além-fronteiras.
Durante grande parte do século XX, a emigração não foi um episódio passageiro nem uma exceção estatística. Constituiu uma característica estrutural da sociedade portuguesa. Milhões de cidadãos partiram para França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Canadá, EUA, Venezuela e Brasil em busca de melhores condições de vida, remunerações mais atrativas, acesso à habitação e perspetivas profissionais que consideravam difíceis de alcançar no país de origem.
Para sucessivas gerações, a ideia de progresso esteve frequentemente associada à partida. A convicção de que o futuro poderia ser construído com maior facilidade noutro lugar marcou profundamente a memória coletiva nacional.
Nas últimas duas décadas, contudo, esta trajetória sofreu uma alteração significativa. Portugal passou gradualmente de país de emigração para país de acolhimento. A estabilidade institucional, a segurança, a qualidade de vida, a integração europeia e a crescente projeção internacional contribuíram para atrair cidadãos oriundos de geografias muito diversas.
Brasileiros, indianos, nepaleses, bengaleses, angolanos, cabo-verdianos, britânicos, franceses, italianos e muitas outras comunidades passaram a integrar de forma crescente o tecido económico e social português. Esta evolução coincidiu com a necessidade de compensar os efeitos de uma natalidade persistentemente baixa e de uma população cada vez mais envelhecida, tornando a imigração uma componente........
