Perceber Morès. Crónica de Manuel Fúria
Não sou de andar de livro na mão exibindo hábitos livrescos, mas leio nos transportes. Para o ter à mão, entalo-o entre o topo interior da sacola e a cobertura. O problema deste método é que o livro fica à mostra. Descobri-o, aqui há atrasado, quando a menina de um Bazar no Chiado, certamente instruída para meter conversa com os clientes, me perguntou o que estava a ler.
— “Uma biografia… um ensaio sobre um francês do século XIX. Um tal de Marquês de Morès.”
Pausa. Voltei à faca de queijo.
— “E quem era esse senhor?”
— “Um feroz anti-semita. Um infame proto-fascista.”
— “Nossa! Terrível! O que leva uma pessoa a ser assim? Deve ser fascinante perceber como essas pessoas pensam.”
Foi então que proclamei:
O silêncio incómodo que se seguiu parecia tirado de uma cena do Curb Your Enthusiasm. A lojista esperava uma resposta literária, talvez curiosa, e eu atirei-lhe com Hobbes e Santo Agostinho.
Tentei então tranquilizar a pequena samaritana. Disse-lhe, mais coisa menos coisa, que Morès é uma possibilidade humana.........
