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Perceber Morès. Crónica de Manuel Fúria

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01.05.2026

Não sou de andar de livro na mão exibindo hábitos livrescos, mas leio nos transportes. Para o ter à mão, entalo-o entre o topo interior da sacola e a cobertura. O problema deste método é que o livro fica à mostra. Descobri-o, aqui há atrasado, quando a menina de um Bazar no Chiado, certamente instruída para meter conversa com os clientes, me perguntou o que estava a ler.

— “Uma biografia… um ensaio sobre um francês do século XIX. Um tal de Marquês de Morès.”

Pausa. Voltei à faca de queijo.

— “E quem era esse senhor?”

— “Um feroz anti-semita. Um infame proto-fascista.”

— “Nossa! Terrível! O que leva uma pessoa a ser assim? Deve ser fascinante perceber como essas pessoas pensam.”

Foi então que proclamei:

O silêncio incómodo que se seguiu parecia tirado de uma cena do Curb Your Enthusiasm. A lojista esperava uma resposta literária, talvez curiosa, e eu atirei-lhe com Hobbes e Santo Agostinho.

Tentei então tranquilizar a pequena samaritana. Disse-lhe, mais coisa menos coisa, que Morès é uma possibilidade humana.........

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