Os nossos heróis (i)
Lembram-se quando saiu o anúncio da reunião dos Heróis do Mar no Pavilhão Atlântico? Foi uma Quarta-feira febril. Daqueles dias em que queremos saber onde estava cada um quando soube da notícia. Mas foi uma alegria fugaz. Nem quinze dias durou. Nessa outra Quarta — uma Quarta-feira vil, mesquinha, daquelas que só servem para estragar a semana — soube-se tinha ido tudo abaixo. Pelo cano. E assim lá fomos, cabisbaixos, de chapéu e botas de chuva sob as imperdoáveis águas de Abril, rumo às nossas vidas cinzentas.
Só que afinal era verdade.
Não acreditam? Pois creiam. Quase década e meia, quatro filhos, três Presidentes dos Estados Unidos e um sem número de desilusões depois, eis que Pedro Ayres Magalhães, Paulo Pedro Gonçalves, Rui Pregal da Cunha, Carlos Maria Trindade, e António José Almeida se juntaram em público. Seria indecoroso dizer que demorou. Quem leva a sério um artista pontual? A pontualidade, nos artistas, é uma falta de imaginação. Atrasaram-se treze anos. Mas apareceram.
Não foi no Parque das Nações, mas no Calhariz de Benfica. Não estavam em cima de um palco, mas ali mesmo ao nosso lado, por baixo do viaduto da Segunda Circular, a escassas centenas de metros do lugar onde tudo começou. E a razão da reunião não era um concerto, mas a inauguração de um mural concebido e pintado por Francisco Camilo, um desses artistas urbanos que hoje fazem o trabalho que antes cabia aos fundidores de bronze e aos escultores de mármore.
Se o mural cumpre ou não, com rigor académico, o papel que as estátuas desempenharam no espaço público é questão que não interessa para nada. O mural é o busto possível de um tempo que deixou de confiar em bustos. O que importa é a decisão de prestar homenagem, o esforço em levá-la a cabo, o brio, quase pueril, em cumprir a tarefa o melhor que se consegue. Para reconhecer, no tempo possível — que é sempre tarde —, que houve ali qualquer coisa que nos ultrapassou. Ali mesmo onde, quarenta e cinco anos antes, um grupo de rapazes se juntou para ensaiar sem saber que estava a arranjar problemas para o resto da vida.
Não há texto sobre os Heróis do Mar que não fale dos mal-entendidos históricos. Não é o caso. É até comovente reler textos de 1994 que já despachavam os acontecimentos do início da década anterior como um equívoco ultrapassado. Ainda assim, dou o meu rim esquerdo em como, no próximo artigo que se publicar sobre eles na comunicação social, lá virá a prosa preguiçosa de serviço, escrita por algum filho espiritual dos mesmos que lhes marcaram a testa com o número da besta em 1981, a discorrer sobre bandeiras, regimes autoritários e intenções ocultas.
Esqueçam a grelha de leitura marxista. A questão dos Heróis do Mar nunca foi ideológica, foi íntima. Foi esse o seu desplante. Um desaforo da mesma estirpe de Camilo Castelo Branco. O que os Heróis traziam exigia entrega. Era romance. E o romance assusta porque é intenso, exigente e, como toda a gente sabe, acaba quase sempre mal. O excesso — esse vício nobre — padece da infantil teimosia em querer aproximar-se da verdade, mesmo quando não sabe muito bem o que está a fazer. Com tudo o que isso tem de desproporção, grandiloquência e mal-entendido.
O que era insuportável, sobretudo para nós portugueses, não era a sofisticação dos Heróis do Mar. Era o contrário. Era ver uma banda de uma inteligência particular — talvez a mais inteligente de todas — cometer o pecado mortal da simplicidade. Dizer “Amor”, “Paixão”, “Alegria”, “Saudade” como se fosse a primeira vez que estas palavras eram ditas. Sem aspas, nem aquele sorrisinho presumido. Como se não soubessem — ou pior, como se soubessem demasiado bem — que em Portugal a sofisticação serve exactamente para não termos de sentir nada até ao fim.
Aquelas palavras vinham nuas. Não pediam desculpa. Isso é tramado. Ainda ontem discutia com um amigo se a Só Gosto de Ti era ou não uma canção irónica. Ainda hoje há quem não acredite que não era. Porque, aceitar que não é, exige uma presença de espírito que não abunda: a de admitir que se pode gostar de uma letra dos Heróis do Mar, precisamente, por ela ser singela, literal, sem subtexto. Isso é perigoso. Quem dá esse passo uma vez pode reincidir. E desatar a cantarolar.
Num país fadado para sobreviver à custa da contenção emocional, isso sim, seria o verdadeiro regresso dos Heróis do Mar.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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