O 28 de Maio, Miles Davis, e o esgotamento da forma
Miles Davis e o General Gomes da Costa entram num bar. Podia ser o Coelho Quincas e D. Dinis? Otelo Saraiva de Carvalho e o Ursinho Puff? Podia, na medida em que são parelhas inusitadas — exactamente como a fórmula exige. Mas seria preciso outra coisa que não apenas a graça do desencontro: há mais em comum entre o 28 de Maio e Birth of the Cool do que a nossa prudência gostaria de admitir.
Comecemos pelo 28 de Maio. Ou, melhor: pelo cadáver que havia antes de 28 de Maio de 1926.
A Primeira República caiu porque, antes de ser derrubada, já se encontrava em processo avançado de decomposição. Não que alguma vez tenha estado em grande forma. Com 45 governos em 16 anos, não seria fácil. Ao contrário do que ainda se insiste em ensinar nos manuais de História, o que caiu em 1926 não foi propriamente uma donzela esplendorosa profanada por bárbaros de bigode e espada. Foi uma República violentíssima, incapaz de produzir paz civil ou continuidade governativa. Golpes, contra-golpes, bombas, greves, perseguições aos católicos, assassinatos; uma classe política fechada sobre si própria e incapaz de se reformar — incapaz até de perceber que nunca fora capaz de governar........
