Cromos e carne
Festa do Corpo de Deus: o meu feriado preferido, e o melhor feriado que há. O nome devia bastar para travar quaisquer tentativas de sentimentalismo. Não se trata da ideia de Deus, nem da energia de Deus. Não é a experiência interior, afectiva ou psicológica de Deus. É o corpo. Essa coisa bela, feita de limites e transpiração, e que tem dado dores de cabeça aos espiritualistas de todos os tempos.
No dia em que Jesus avança pelas ruas, os católicos dão por si devolvidos à carne, que é o limite fundamental da sua fé. Nunca é demais insistir: o cristianismo não é a religião das almas que se safaram do corpo. É a religião do Deus que quis ter corpo; e que nos salvou, não apesar da fome, da sede, do cansaço, da ferida e da morte, mas através da fome, da sede, do cansaço, da ferida e da morte.
É o que é. A fé católica tem maneiras más. Quando o mundo quer sublimação, ela mostra uma Hóstia. Quando o mundo se refugia nas nuvens, ela dá-lhe na cabeça e puxa-o para baixo, para a rua, envolvida no pálio, com o seu mistério redondo, branco e frágil.
Há um conto da Flannery O’Connor, chamado “The River”, em que um rapaz, depois de ter sido baptizado por........
