A poltrona invisível da Escola do Largo
O segredo é uma forma de pudor. E o pudor é uma forma de verdade. Para uma coisa não ser vista, precisa do que a defenda: uma fachada, o arvoredo, um arco, as traseiras de um jardim. A vulgaridade expõe-se. O que é valioso guarda-se. Daí que uma coisa seja tanto mais preciosa quanto mais velada se encontra.
A totalidade da minha teoria sobre a cidade resume-se a esta ideia simples: a grandeza de uma cidade mede-se pelos segredos que guarda. Se isto vale para Oz, para a Terra Média ou para a liturgia tradicional, por que raio não há-de valer para a cidade, que tem sempre um bocado de fantástico, medieval e santo?
Veneza é um bom exemplo, por excesso. Veneza mostra tudo. Uma beleza quase indecente. Uma pessoa chega a Veneza e sente-se diminuída, abre a boca e pasma-se. Mas é um truque (Veneza é velha e é sabida). O que Veneza não quer é que o turista descubra os seus segredos. Vocês não sabem, mas eu vou dizer-vos: por detrás daquelas fachadas escondem-se pátios, e ao fundo desses pátios esquinas, e a dobrar essas esquinas um tesouro; sobre o qual, como é evidente, não posso falar.
Lisboa também é........
