Queremos mais salas de cinema. Para quem, exatamente?
Portugal diz que precisa de mais salas de cinema, mas estreia dez filmes por semana para depois descobrir que quase ninguém os viu. Entre multiplexes a fechar, filmes portugueses e independentes não norte-americanos a morrer ao fim de semana e o Governo a encomendar estudos e a prometer soluções, talvez o problema não seja só a falta de ecrãs: é a falta de hábito, de desejo, de programação, de mediação e de uma ideia clara do que queremos que seja uma sala de cinema.
O apagão cultural e a pequena expedição ao cinema
Sempre que se fala da exibição cinematográfica em Portugal há uma frase que se repete quase sempre: faltam salas de cinema. E é verdade. Faltam salas em muitos sítios. Faltam salas fora de Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Setúbal ou Faro. Faltam salas em capitais de distrito onde, para uma pessoa “ir ao cinema”, não basta escolher o filme, comprar bilhete e sair de casa; é preciso organizar uma pequena expedição, quase com mochila, sandes de panado e autorização meteorológica. Beja, Bragança, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo surgem neste mapa de apagão cultural como territórios onde a exibição comercial regular desapareceu ou se tornou residual. E, segundo dados noticiados a partir do relatório do Grupo de Trabalho Informal sobre a exibição cinematográfica, criado pela tutela, Portugal entrou em 2026 com menos 112 ecrãs face ao ano anterior, ficando com 450 salas em janeiro, depois de em 2025 ainda contar 562 ecrãs. Isto não é uma estatística: é uma luz que se apaga no centro de uma terra.
Mas depois há o outro lado da história, aquele que estraga a elegância do luto e nos obriga a tirar os óculos escuros de cinéfilo ofendido. Faltam salas, é verdade. Mas também faltam espectadores. Ou, melhor dizendo, faltam espectadores para muitos filmes que estreiam todas as semanas como quem entra numa auto-estrada em contramão ou, pelo menos, numa via com muito pouca circulação. Há semanas em que chegam às salas portuguesas oito, nove, dez filmes novos, todos a pedir cartaz, crítica, atenção, espaço de promoção nos media — imprensa escrita, rádio, televisão e plataformas digitais —, horários decentes e vida útil. O resultado é conhecido: alguns estreiam praticamente já em estado terminal, com sessões às horas em que só há reformados insones, estudantes perdidos ou críticos de cinema em missão humanitária. O filme entra em cartaz na quinta-feira, é ignorado na sexta, sobrevive no sábado, leva um tiro no domingo e, na segunda, já está a caminho de sair de cartaz, rumo à plataforma, à memória curta ou ao esquecimento administrativo. É o cinema enquanto folha de Excel: estreou, cumpriu, morreu.
Ainda assim, alguns filmes continuam a circular pelos cineclubes espalhados pelo País, que cumprem parte da missão das salas que vão fechando, embora, na sua maioria, nem sempre tenham as condições ideais de projecção. A comparação recente entre “Michael”, de Antoine Fuqua, e “Projecto Global”, de Ivo M. Ferreira, é cruel, mas útil. Na semana de 23 a 29 de abril, segundo o ranking semanal do ICA, “Michael” entrou em 108 ecrãs, somou 81.530 espectadores nessa semana e acumulava já 90.331 entradas; “Projecto Global”, filme português, politicamente mais incómodo, formalmente mais exigente e sem o exército pop de Michael Jackson a dançar por ele, estreou em 54 ecrãs e fez 4.858 espectadores nessa semana, 5.028 acumulados — números que, convém dizer, até são muito bons para os parâmetros habituais do cinema português. Não se trata de moralizar o público, nem de fingir que todos devíamos trocar o moonwalk por uma reflexão sobre as FP-25. Trata-se de perceber a desproporção brutal entre oferta, promoção, reconhecimento, desejo e capacidade de permanência em sala.
Estreamos filmes demais, vemos de menos
O paradoxo português é este: queixamo-nos da falta de salas para estrear filmes, mas o mercado atira filmes para salas onde eles não têm tempo para respirar. Temos excesso de estreias e escassez de acontecimento. Temos filmes portugueses a estrear como se a estreia fosse apenas uma obrigação contratual, uma etapa para cumprir dossiês de financiamento do........
