Festival de Cannes, meu amor: O cinema, a imprensa e as ostras
Cannes continua a fingir que é apenas e só um grande festival de cinema. Na verdade, é o maior do mundo, se juntarmos filmes, profissionais, estrelas, vendedores, compradores, turistas, influencers, curiosos, seguranças, motoristas, jornalistas e gente muito bem vestida sem função aparente, que se passeia pela Croisette engarrafando a paisagem. Na verdade, Cannes é uma mistura de concílio do Vaticano, bolsa de valores, casino municipal, campo de refugiados da vaidade e colónia de férias para adultos que dizem “cineasta-autor” — ou simplesmente “auteur”, para parecer mais grave e soixante-huitard — com a mesma devoção com que outros dizem “Nossa Senhora de Fátima”.
Cannes será sempre Cannes, digam o que disserem. A frase pode parecer idiota e não dizer nada à maioria das pessoas, mas é provavelmente a única definição possível para tudo o que gira à volta deste grande festival anual de cinema. É como dizer “o mar é molhado” ou “um crítico de cinema sem bateria no telemóvel é uma espécie em vias de extinção”.
Cannes é Cannes porque não se explica: aguenta-se, sofre-se, ama-se, amaldiçoa-se e, quando acabam aqueles onze dias, já se está a ver preços de hotéis para o ano seguinte, como toxicodependentes da passadeira vermelha, embora, no caso dos jornalistas, a dependência seja mais das sessões de imprensa, das filas intermináveis, das noites mal dormidas e da roupa errada para aqueles dias de maio em que tanto pode chover como fazer calor de sauna, com ar condicionado assassino dentro das salas.
Cannes, para quem gosta verdadeiramente de cinema, é uma doença crónica com vista para o Mediterrâneo. Todos os anos há quem leve fato de banho e havaianas, mas nunca ponha os pés na areia, quanto mais tomar banho naquelas águas luzidias e bem mais quentes do que as da costa portuguesa, embora as nossas praias dêem 10-0 às de Cannes. O máximo de praia, para jornalistas e críticos de cinema, consiste em atravessar a Croisette a suar dentro de roupa imprópria para seres humanos, enquanto se olha de lado para a malta nas esplanadas, bem vestida de claro, ou estendida nas espreguiçadeiras dos restaurantes dos hotéis míticos — Majestic, Carlton, Martinez, Miramar, entre outros — como se estivesse num filme paralelo, com melhor orçamento e menos obrigações de escrita.
A fome, as festas e o jornalismo com olheiras
O problema é que esta doença vem embrulhada em luxo, champanhe, credenciais, humilhações logísticas e restaurantes onde uma salada custa quase o equivalente a uma pequena co-produção portuguesa com apoios públicos.
Chega-se sempre com ilusões. Na noite anterior ao primeiro dia, ainda se acredita que este ano vai ser tudo mais organizado, mais equilibrado, mais adulto, menos cansativo. Senta-se uma pessoa numa esplanada no dia anterior, depois de ir buscar a acreditação, come umas ostras, bebe um rosé da Provence, toma um café, olha para o mar ou para a multidão que começa a chegar e diz: “Este ano vai ser diferente.” Não vai. Nunca é. Essa é a última refeição decente e prazerosa. A partir daí, começa a guerra.
Nos tempos mais pobres de juventude e dos primeiros anos de ida para cobrir o Festival de Cannes — ou seja, mais resistentes e menos burgueses — havia sempre uma pizzaria salvadora, enorme, meio triste, meio familiar, meio napolitana, onde se comia depressa, mal e barato, antes de dormir com a barriga cheia e correr para uma sessão das oito e meia da manhã. Hoje, finge-se sofisticação, mas a verdade é simples: Cannes transforma toda a gente em estudante Erasmus com um par de ténis melhores do que nos primeiros tempos. Passam-se onze dias a sobreviver à antipatia de empregados de restaurante que nos tratam abaixo de cão, a sanduíches pré-históricas, cafés maus, croissants de emergência e promessas de jantares que nunca acontecem porque alguém conseguiu “talvez” entrada numa festa onde “pode aparecer” uma atriz que afinal aparece durante sete minutos, posa para três fotografias e desaparece para um jantar verdadeiro, esse sim, com comida. Cannes é também isto: a fome como forma de iniciação.
A imprensa em geral corre. Corre literalmente. Há jornalistas que passam o festival inteiro a correr como se estivessem a fugir de um incêndio, mas o incêndio é a possibilidade de não entrarem numa festa da Chopard, de uma produtora qualquer ou de um país báltico com grande ambição cultural e um catering razoável.
O jornalismo cultural e a crítica de cinema transformam-se, durante onze dias, numa variante de relações públicas com olheiras, noites mal dormidas e dias dormidos e ressonados durante as muitas sessões de cinema. Às vezes, é preciso dar uma cotovelada ao tipo que está sentado ao nosso lado. Há quem vá a Cannes para ver filmes. Outros para dormir nos filmes e até bater com a cabeça para baixo. Há quem vá para ser visto a tentar ver filmes. Há quem vá para fazer entrevistas e saia a meio das sessões. Há quem fotografe a própria acreditação, ou crachá pendurado ao pescoço, como se fosse uma medalha de guerra. E há quem diga “ontem estive com…”, sendo que “estar com” pode significar ter passado a dois metros de alguém no corredor do Martinez enquanto tentava tirar à socapa uma garrafa de água e um croissant requentado de uma mesa preparada para a imprensa, ou sentar-se numa round table, de 20 minutos, com mais dez jornalistas da imprensa escrita ou online, para conseguir fazer uma pergunta banal e repetida ao talento com ar aborrecido, enquanto não chega o assessor de imprensa a dizer que a entrevista acabou. E chamam a isto entrevistas. Os jornalistas de televisão têm outro tratamento: lá conseguem, na maioria das vezes, um “one on one”, ou melhor, uma entrevista individual, que não passa dos cinco minutos.
De facto, o Festival de Cannes tem uma extraordinária capacidade........
