Almada e a crise da água ou a tua nuvem seca o meu rio
Portugal parece estar a descobrir tarde que a água, em Almada ou no resto do País, não nasce nas conferências de imprensa ou discursos dos políticos e dos autarcas, nem nos renders dos resorts de luxo que vão proliferando pela nossa bela costa, nem nas promessas digitais da nuvem. Nasce onde sempre nasceu: no solo, nos rios, nos aquíferos, na chuva. O problema é que andamos há anos a vendê-la como se fosse apenas paisagem.
Estou em Soltróia nuns poucos dias de lazer, mas não deixo de estar ligado ao que se passa. E isto, para mim, nunca foi apenas um sítio de férias. É uma espécie de álbum de família com areia nas páginas. Vá, mas não me chamem privilegiado: também mereço uns dias de descanso. Há mais de trinta anos que passo aqui pequenas temporadas, primeiro com as minhas filhas pequenas e com um grupo de amigos de verão, depois com aquela fidelidade um pouco absurda que temos aos lugares onde fomos sempre felizes. Chamávamos-lhe o nosso Algarve, com a vantagem de não ser o Algarve. Ao fundo, no azul e verde do mar, vemos a Serra da Arrábida recortada como uma promessa de natureza e felicidade, até o sol se pôr e “fecharmos a praia” ou melhor sermos os últimos a sair. E, antes disso, ainda miúdo, vinha com os meus pais no Mini, atravessávamos o Sado no ferryboat e viajávamos pela estrada Troia, Comporta, Pinheiro da Cruz, Melides, na altura com um piso impecável — agora toda destruída pelos camiões das obras — e que cheirava a pinheiro, ou seja, cheirava a férias e liberdade, em direção à Lagoa de Santo André, onde as férias grandes duravam de junho até outubro. Era o tempo fabuloso em que a infância ainda tinha quatro meses de liberdade e não três dias úteis entre duas notificações e um jogo online, fechados no quarto. Isto era um verdadeiro paraíso. Ainda é, em determinadas alturas, fora do verão e, por enquanto, antes de começar a segunda quinzena de julho e agosto. Depois volta à pacatez. Mas veremos como será no futuro, com tanta construção civil e tanta pressão imobiliária.
A Comporta, que está na moda, era então uma aldeia pacata, com tascas de trabalhadores, arrozais, silêncio, mau tempo, pescadores, mosquitos e verdade. Agora chamam Comporta a quase tudo o que fica entre Troia e Melides, como se uma marca pudesse substituir a geografia, a memória, a agricultura, a água e até o bom senso. O nome ficou chique. O território ficou à venda. Até a areia aprendeu sobretudo inglês e espanhol. As casas perderam telhado de colmo e ganharam arquiteto suíço. E, como sempre acontece quando o dinheiro descobre um paraíso, a primeira coisa que faz é perguntar onde se liga a piscina ou como se pode regar o campo de golfe.
A torneira que avisou antes de secar
Estou aqui a descansar uns dias, mas também a pensar nas pessoas de Almada e da Caparica. Não por mera abstração ecológica, nem por militância de cartaz, mas porque tenho uma ligação ao lugar: uma velha casa na Charneca da Caparica, herdada depois de contas familiares, obras adiadas e memórias que resistem melhor do que as canalizações, essas sim a apodrecer, com as paredes cheias de humidade vinda do chão. Passei ali uma parte importante da juventude depois da venda da casa da Lagoa de Santo André, em 1976. Ficava mais perto e as praias também são boas, diziam os meus pais. Eu teria uns 16 anos. Não há muitos anos, vivi lá quase dois anos seguidos, numa fase complicada da minha vida, em que os pais deixam de tratar de nós para sermos nós a tratar deles; mas, curiosamente, até foram tempos felizes, de superação individual e solitária. A Charneca, a Fonte da Telha, a Costa da Caparica, aquelas maravilhosas praias selvagens a vinte minutos de Lisboa, tudo isso faz parte da minha educação sentimental. Uma educação feita de sal, pinhal, motorizadas, bicicletas, almoços improvisados, casas térreas e uma ideia de liberdade que hoje talvez fosse proibida por falta de licenciamento.
Ora, quando uma torneira começa a falhar na Charneca da Caparica, na Costa, na Sobreda, em Almada, não é apenas a água que falta. Falha uma ilusão inteira. A ilusão de que viver perto do Rio Tejo e do Oceano Atlântico é garantia de abundância. A ilusão de que Portugal, porque tem mar lindo por quase todos os lados, tem água para tudo. A ilusão infantil de que basta abrir a torneira e o Estado, Deus, a Câmara, a APA, a EPAL, os SMAS, a chuva ou Nossa Senhora da Caparica tratam do resto.
Nos últimos dias, Almada e a Caparica tornaram-se uma espécie de trailer nacional de um filme de terror que ninguém quer ver ou, melhor, sentir na pele. Cortes, baixa pressão, reservatórios em mínimos, moradores a encher garrafões, comerciantes a perder dinheiro, peixeiras a tentar conservar peixe sem água, cabeleireiros sem conseguir lavar cabeças, pessoas a tomar banho de madrugada quando finalmente a torneira tossia qualquer coisa. A explicação oficial começou por parecer simples: uma rutura, calor, consumo sazonal, mais gente, azar,........
