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A Seleção Nacional e CR7 na Rota da Seda

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23.06.2026

Portugal joga esta terça-feira, às 18 horas, hora de Lisboa, com o Uzbequistão e, como sempre nos últimos anos, a ansiedade é grande e não parece inventada por um comentador de serviço sobre geopolítica, futebol e crises de meia-idade. Portugal-Uzbequistão. Assim mesmo. Dito em voz alta, soa menos a jogo decisivo do Mundial — que só esta organização permite com 48 seleções — e mais a jogo amigável, ou a escala perdida de Corto Maltese depois de uma noite mal dormida entre Istambul, Tashkent e um bar onde ninguém aceita cartões de crédito. Mas é mesmo futebol. Grupo K. Houston. Calor. Relvado. VAR. E Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, ainda ali, monumento nacional em chuteiras, entre o mausoléu e o patrocínio, entre o mito e a teimosia, entre a estátua e uma daquelas cúpulas azuis de Samarcanda que resistem a tudo: à erosão, aos turistas, à “carraça” do João Neves, que não larga nunca uma jogada, e aos treinadores que não sabem se a história se deve respeitar ou substituir.

Depois do empate com a RD Congo, Portugal entra neste jogo com aquele ar muito nosso: dramaticamente ofendido, como, inexplicavelmente, se percebeu nas duas conferências de imprensa dos últimos dias — primeiro na de Rúben Dias e depois na de Diogo Dalot, quando o jogador afirmou diretamente que a Seleção está blindada contra o ruído externo, sublinhando que “há milhões de pessoas que querem que Portugal ganhe e outras que não”, sem concretizar muito bem quem seriam essas outras. Vá lá, parece que o “espalha-brasas” Francisco Conceição veio amenizar as coisas. Pois parece que o mundo não quer colaborar com a nossa superioridade moral. No jogo com a RD Congo, a seleção nacional marcou cedo, sofreu tarde, dominou sem convencer e saiu de campo com a expressão de quem tinha reservado mesa num restaurante caro e acabou a comer uma bifana fria numa estação de serviço da A1.

O andor, a pulseirinha e a bifana fria

Nada de novo, portanto. O português médio conhece bem este género de epopeia: começa sempre com a convicção de que somos favoritos, passa por uma fase de irritação com o árbitro, os comentadores, a relva, a humidade, o fuso horário e a ingratidão da humanidade, e termina com a frase clássica: “Assim não vamos lá.” A diferença é que agora o “lá” já não é só a final. É também passar da fase de grupos. E é a pergunta inevitável: vamos lá com Ronaldo, apesar de Ronaldo, por causa de Ronaldo, ou levando Ronaldo como se levavam antigamente os santos nas procissões, ou seja, no andor, carregado por outros dez jogadores, não para jogar, mas para o “santo” proteger a aldeia? Ou vamos fiar-nos na pulseirinha da fé e da sorte que Montenegro ofereceu aos jogadores?

O Uzbequistão chega como estreante, que é uma palavra sempre muito perigosa nestas situações. No futebol, “estreante” quer normalmente dizer equipa simpática, organizada, sem nada a perder, da qual não conhecemos nenhum jogador, e com enorme vocação para nos estragar a digestão e provocar uma azia coletiva. O país vem da Rota da........

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