2026 e a geração dos nascidos sem Wi-Fi, educados pelo tempo
Ao início de um novo ano junta-se o meu aniversário a 5 de janeiro. E, como manda a tradição íntima de quem já tem mais passado do que futuro por inventar, volto a prometer a mim próprio um novo ciclo. A diferença é que, desta vez, o ritual coincide com um marco administrativo: entro oficialmente na reforma aos 66 anos, depois de 43 anos de atividade profissional, incluindo serviço militar obrigatório, a tropa como dizíamos antes. Olho para mim e nem acredito. Embora, diga-se desde já, que não vou deixar de trabalhar, ainda tenho muito para fazer, dizer, escrever e incomodar, e vão ter de continuar a ‘levar comigo’, quanto mais não seja, pelo menos a falar dos realizadores e filmes que gosto e recomendo. Não vos digo quanto vou receber mensalmente de reforma — até porque a excitação dura pouco — mas dá pelo menos para as contas da farmácia, para o seguro de saúde (esse novo amor maduro que entrou na nossa vida e nos dá um pouco mais de segurança); e para assistir, com a devida melancolia cívica, à lenta degradação de uma das maiores conquistas do pós-25 de Abril: o SNS. Um sistema que envelhece connosco, mas pelo vistos, sem a nossa capacidade de resistência.
Entretanto, eis que o algoritmo, esse anjo torto do nosso tempo, — omnipresente nos nossos dispositivos digitais, sempre pronto a saber mais sobre nós do que gostaríamos — me oferece uma pequena alegria e até fiquei mais animado como o meu estatuto de ‘reformado’, para além dos descontos nos transportes, nos espectáculos público e nos museus. No Google Discover, essa curiosa mistura de horóscopo tecnológico com jornalismo de aeroporto, descubro num artigo de uma revista online de psicologia (que tem o singelo nome de Cottonwood Psychology) que afinal eu, e outros sobreviventes nascidos nas décadas de 1960 e 1970, pertencemos a uma espécie em vias de extinção cognitiva. Segundo psicólogos e estudos recentemente citados no referido artigo, crescemos a desenvolver capacidades mentais que........
