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“Projecto Global”: Entre a ferida e o fogo

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25.04.2026

“Projecto Global”, de Ivo M. Ferreira, estreado a 23 de abril nas salas de cinema, está a cair numa zona de nervo exposto. Se calhar, ainda bem, porque finalmente pega num tema que continua a incomodar Portugal e recusa tratá-lo com pinças, como já o disse no texto que escrevi sobre a estreia do filme. Por isso, não é surpresa ver extremarem-se posições: para uns, trata-se de um thriller político raro no cinema português, corajoso, ambíguo, anti-violência e mais interessado em perceber como certas pessoas escorregam para a clandestinidade armada do que em distribuir santinhos e demónios de cartolina; para outros, é um objeto moralmente falhado, porque acompanha demasiado de perto os operacionais das FP-25, torna as vítimas quase invisíveis e, ao fazê-lo, corre o risco de suavizar o peso histórico e ético dos crimes.

A questão séria não é escolher uma trincheira por reflexo. É perceber o que há de verdadeiro no desconforto de cada um. Porque, neste caso, há mesmo qualquer coisa a defender de um lado e qualquer coisa a escutar do outro. E só vale a pena falar e escrever sobre “Projecto Global” se for para tentar fazer justiça a essa tensão, sem a transformar nem numa absolvição sentimental das FP-25, nem num tribunal moral onde o cinema passa a ter de funcionar como acórdão.

A primeira coisa a pôr em ordem é a cronologia. A violência política na democracia portuguesa não começou com as FP-25. Isso é um facto histórico e convém dizê-lo, porque há sempre alguém pronto a fingir o contrário, conforme lhe convém ideologicamente. Logo após o 25 de Abril, sobretudo entre 1975 e 1976, Portugal conheceu a violência organizada da direita e da extrema-direita, através de redes como o MDLP e o ELP, ligadas ao universo spinolista, a setores salazaristas e a franjas do aparelho repressivo do antigo regime. O Verão Quente de 1975 não foi só um delírio poético de cartazes e comícios: teve bombas, atentados, sabotagem, terror e mortos. O assassinato do padre Maximino Barbosa de Sousa, o Padre Max, e de Maria de Lurdes Correia, em abril de 1976, continua a ser um dos episódios mais negros dessa violência, com o MDLP repetidamente apontado como responsável. Recorde-se que o MDLP surgiu no Verão Quente de 1975 e participou em várias ações de terrorismo antes de suspender a sua atividade em 1976; é-lhe explicitamente atribuído o atentado que matou o Padre Max e a jovem que seguia com ele.

Só depois, já em 1980, surgem as FP-25. E surgem num contexto diferente: já depois do 25 de Novembro, já depois da estabilização possível da democracia parlamentar, já depois de a revolução ter perdido o seu descontrolo militar e o seu impulso insurreccional de rua. As FP-25 aparecem com outra narrativa de legitimidade: a de que a revolução foi roubada, domesticada, parlamentarizada, traída, e de que a luta armada podia continuar a ser uma forma legítima de corrigir o rumo da História. Entre 1980 e 1987, a organização foi responsável por uma campanha de assaltos, atentados, explosivos, baleamentos e mortes. As fontes divergem no número total de vítimas fatais, mas as referências públicas apontam para pelo menos 14 mortes diretamente atribuídas às FP-25, além da morte de operacionais em ações da organização.

Isto importa por uma razão muito simples: sem esta cronologia, a discussão moral ficaria viciada logo à partida. Se alguém sugere que lembrar o MDLP e o ELP serve para desculpar as FP-25, está a fazer batota histórica. E, se alguém usa a existência da violência de direita para diluir a responsabilidade da violência de extrema-esquerda, está a fazer batota moral. O que existiu foi uma sucessão de traumas num país a sair aos tropeções de uma ditadura de 40 anos, onde setores diferentes, em........

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