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O silêncio dos versos vivos

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24.03.2026

Dizem que Portugal é uma terra de poetas. É um lugar-comum que se repete nas escolas, nos discursos oficiais e nas capas de livros escolares. Camões, Pessoa, Sophia, Torga. Nomes gigantes, estátuas de bronze que vigiam as praças e as almas. Mas hoje, neste Dia Mundial da Poesia, proponho que olhemos para baixo, para o chão da rua, e não para o pedestal. Proponho que olhemos para os vivos.

Há uma violência silenciosa no modo como tratamos a poesia contemporânea em Portugal. Celebramos o morto com fervor nacional, mas deixamos o vivo esperar à porta, com o manuscrito debaixo do braço e o frio a entrar-lhe pelos ossos. Eu sei o que é esse frio. Bati a tantas portas. Enviei tantos e-mails. Preparei tantas embalagens com o cuidado de quem oferece um órgão para transplante, na esperança de que aquela palavra salve alguém. E o retorno veio. Veio frio, gélido. Um “não” padronizado, ou pior, o silêncio, que é a forma mais educada de indiferença.

Não escrevo esta crónica apenas como lamento pessoal — embora a ferida da rejeição seja uma cicatriz que todos os criadores conhecem —, mas como um alerta coletivo. Se Portugal é, de facto, uma terra de poetas, onde é que eles estão a publicar? Onde é que eles estão a ser lidos?

A verdade nua e crua é que a poesia viva está sufocada. As editoras, num mercado editorial que se quer cada vez mais comercial, olham para o verso como quem olha para um produto de risco. “A poesia não vende”, dizem. E talvez não venda porque não se mostra. Porque não se motiva o leitor a perder o medo do poema. Porque se esquecem que a poesia não é um produto de consumo rápido; é um alimento de digestão lenta, que exige pausa, exige silêncio, exige uma relação de intimidade entre quem escreve e quem lê.

Precisamos de uma reabilitação urgente da Poesia. Não a dos museus, mas a das livrarias, das esplanadas, das estações de comboio. Precisamos que as editoras arrisquem. Que invistam na divulgação de novos nomes com a mesma intensidade com que relançam as obras completas de Pessoa. Um livro de poesia novo não pode ser um objeto de culto para iniciados; tem de ser um convite.

Mas a responsabilidade não é apenas de quem edita. É também de quem financia e de quem lê. O Estado precisa de criar incentivos reais para a produção literária, não apenas bolsas esporádicas, mas um ecossistema que permita ao poeta tempo para escrever sem que a escrita seja um luxo de fim de semana. E nós, leitores? Temos de perder o receio. Temos de entender que o poema contemporâneo não é um enigma para ser decifrado, mas uma experiência para ser sentida.

Há uma geração de poetas a escrever agora, neste exato momento, em quartos pequenos, em cafés barulhentos, em ecrãs de telemóvel. Há versos a nascer que falam da crise, do amor, da guerra, da pandemia, da esperança. Há vozes que tremem, sim, mas que têm a força da verdade. Esses poetas não querem ser estátuas. Querem ser lidos. Querem que a sua palavra ecoe no presente, não no futuro distante da posteridade.

Quando bati àquelas portas e o “não” veio gélido, senti que não era apenas o meu poema que estava a ser rejeitado. Era a possibilidade de diálogo. Era a chance da cultura respirar ar novo. Uma editora não é apenas uma empresa; é uma guardiã da cultura. E uma cultura que ignora os seus criadores vivos é uma cultura que está a preparar o seu próprio luto.

Neste mês em que se assinala o Dia Mundial da Poesia, não levantemos apenas a taça para os que já não podem beber. Estendamos a mão aos que estão aqui, com a tinta ainda fresca nas mãos. Que as editoras abram as janelas. Que os leitores percam o medo. Que o “não” deixe de ser gelo e passe a ser desafio.

Portugal será terra de poetas no dia em que a poesia deixar de ser um monumento e passar a ser, novamente, um caminho. Até lá, continuaremos a bater à porta. E esperamos, teimosamente, que alguém nos mande entrar.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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