Do prazer de cheirar livros e da tirania simpática do “muito sucesso”
Há um momento íntimo — e deliberadamente silencioso, quase erótico — que nenhum escritor deveria partilhar em excesso: aquele em que recebe o livro acabado. Não o PDF obediente, nem a maquete digital com comentários técnicos, mas o objeto real. O livro enquanto corpo. O peso preciso, a textura discreta, o cheiro quase indecente e inebriante a tinta e papel. Nesse instante, não há público, nem mercado, nem promessas: há apenas uma suspensão do mundo. O livro repousa nas mãos como algo que já não nos pertence totalmente e que, sem o sabermos ainda, nos deslocou ligeiramente o coração do sítio. Tudo o resto virá depois. Se vier.
Eu sei: isto soa a sentimentalismo de autor, essa doença crónica que se agrava com dedicatórias e piora com fotografias ao lado de pilhas de exemplares. Mas é um sentimentalismo com prova material — e com cheiro. Quem nunca encostou o nariz a um livro novo e sentiu uma espécie de euforia primitiva, como se o cérebro dissesse “finalmente, uma coisa verdadeira”, que atire a primeira caixa de cartão da transportadora.
Depois há o gesto de mirá‑lo: capa, contracapa, lombada. A lombada é o sítio onde a vaidade se torna minimalista e, por isso mesmo, mais perigosa. Na lombada, o nome parece sempre mais sério do que nós. E o título — ali, fininho, vertical, a lembrar que a literatura é uma forma elegante de teimosia.
E há o toque. A capa tem uma temperatura. Um livro recém‑nascido ainda está morno, como se tivesse saído de uma incubadora tipográfica. Apetece dizer coisas ridículas: “Olá.” “Chegaste.” “Foste tu que me escolheste?” Apetece, sobretudo, fazer aquilo que as pessoas sensatas fazem com os filhos dos outros: sorrir, elogiar e devolvê‑los rapidamente, antes que comecem a chorar.
Só que este filho não chora. Este filho exige. Exige tempo. Exige atenção. Exige leitores — essa espécie rara que, em Portugal, é frequentemente confundida com “pessoas que têm estantes bonitas na sala”.
Portugal é um país de poetas, já se sabe. Um país onde quase toda a gente conhece um verso, uma citação, um refrão, uma frase “muito profunda” que viu num story. A poesia aqui é como o bacalhau: há sempre uma receita na ponta da língua. O problema é quando se pergunta: “E ler, lê?” A pergunta cai no chão e parte‑se. Porque ler é........
