M. A. Pina: o cronista raro, que nos faz muita falta... Opinião de José Carlos Vasconcelos
1. Com frequência me lembro do Manuel António Pina. Penso nele por diversas razões, nem sei qual a dominante. O natural é mesmo variarem muito. Porque ele foi o poeta, o jornalista, o cronista, o dramaturgo, o autor de livros infanto-juvenis, o contador de histórias, o querido amigo, etc. Em tudo, de uma forma ou de outra, singular. Absolutamente singular. Também por diversas razões, algumas das quais não saberei explicar. Mas, fora de dúvida, com o enorme talento e a poderosa imaginação, a capacidade de ver as coisas sob uma perspetiva original ou sob diferentes perspetivas, o humor inteligente e a escrita tantas vezes encantatória.
Mas adiante. Se com frequência me lembro do Pina, como só assim os seus próximos o tratávamos, isso ainda acontece mais quando, por agosto e setembro, chego à Póvoa e a Freamunde. Porque por esta altura tínhamos sempre encontros marcados, uns jantarzinhos seguidos de conversas ou paleios graças a ele deliciosos, até às tantas. Graças a ele, em geral com a colaboração do nosso também comum velho amigo e camarada dos jornais Germano Silva, que em geral o acompanhava e em variadas histórias contadas pelo Pina fazia parceria com ele – sobretudo nas do Jornal de Notícias (JN), onde ambos sempre trabalharam. Por exemplo, histórias do velho chefe de redação, Manuel Ramos, 47 anos de “casa”, que dava ao Pina daquelas fotografias que nos jornais se usavam para encher espaço ou assinalar a chegada da primavera e do outono, coisas do género, dizendo-lhe para ele fazer as legendas… “no seu estilo paneleirinho”.
2. Uma vez, já lá vai bastante tempo, quando os dois chegaram à Póvoa, por um fim da tarde de agosto, disse ao Pina que tinha uma grande surpresa para ele: “Agora tens cá uma estátua!”. Ele, silencioso, piscou os olhos miúdos por trás........
