Já reparou que passa o dia a pensar no futuro? Uma reflexão sobre a felicidade
Já reparou que passa o dia a pensar no futuro? No que vai acontecer? O nosso cérebro, esta máquina magnífica que nos faz sentir o mundo, está programado para planear tudo, a todo o momento. Os neurocientistas chamam-lhe “default mode network”: a rede neuronal que se ativa precisamente quando não estamos focados em nada em particular, e que passa o tempo a simular futuros, a ruminar passados, a antecipar ameaças. É um mecanismo de sobrevivência extraordinário, que nos permitiu prosperar tanto na selva como na selva urbana, caótica e esquizofrenizante do dia-a-dia. O problema é que este piloto automático, quando não tem um contrapeso de presença e consciência, torna-se um terreno fértil para a ansiedade crónica. E os números confirmam-no.
Segundo o Relatório Mundial da Felicidade, Portugal desceu cinco lugares e encontra-se agora na segunda metade mais baixa dos 140 países analisados, mantendo uma trajetória descendente assente, sobretudo, na forma como os portugueses percecionam a sua própria qualidade de vida. Somos, cada vez mais, duros connosco próprios. Há quem diga, e não sem razão, que os nossos animais de estimação são mais felizes do que nós. Esta correria, física e mental, deixa pouco espaço para a felicidade. A felicidade tornou-se um ideal, não uma realidade. Todos a buscamos, mas temos muita dificuldade em encontrá-la.
Já reparou como, nas livrarias, as secções de autoajuda cresceram até ocupar dimensões consideráveis? Dicas, opiniões e truques, mais ou menos fundamentados, só reforçam esta busca obsessiva de um ideal em vez de nos ancorarem na realidade que já existe. Mas o que fazer? Essa é uma pergunta que deve fazer, antes de mais, a si próprio. Ser – ou estar – feliz significa, acima de tudo, sentir-se bem, ter saúde mental. E não há nada mais pessoal e individual do que isso. A psicologia contemporânea diz-nos algo que parece simples, mas que contraria muito do que absorvemos culturalmente: a felicidade não é um estado permanente a atingir, mas uma experiência que acontece em momentos. Esperar por uma realidade utópica onde não existem problemas ou dificuldades é, precisamente, o que a torna inalcançável.
Ninguém vive sem problemas, e os problemas são, muitas vezes, um sinal de vitalidade, de dinâmica. Idealizar que estar feliz é estar sem problemas é uma armadilha cognitiva da qual poucos escapam. O caminho para tornar a felicidade real, ou, se preferir, o bem-estar, a saúde mental, passa por aceitar que a vida não é um mar de rosas. Haverá sempre problemas, dores e contrariedades.
Mas, no meio de tudo isso, existem momentos, situações e pessoas que nos fazem estar bem. A psicologia positiva chama-lhe “flourishing”: não a ausência de dificuldade, mas a capacidade de florescer apesar dela. Parte deste processo passa também por aceitar que não vamos estar sempre bem. Que haverá dias em que simplesmente não estamos assim tão felizes. E está tudo bem. Não é por não estarmos bem agora que perdemos a capacidade de voltar a estar. A felicidade real continua lá, nas pequenas coisas, no dia-a-dia agitado, num momento que guardamos só para nós ou que partilhamos com quem nos é querido.
Olhe para si. Olhe para o seu mundo. Perceba o que o faz feliz no seu dia-a-dia e não no futuro imaginado, mas agora. Desfrute dessa felicidade real, esquecendo a felicidade utópica. Seja feliz.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
