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Entre Gaza e o esquecimento da infância

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08.04.2026

No mundo cabem várias formas de existência, alteradas pela passagem do tempo que ora faz de tudo uma coisa, ora faz de tudo o seu exato inverso: cada ponteiro do relógio eterno da espécie que calhámos ser atira conceitos sobre o que tivemos a necessidade de definir e não conseguimos, de forma geral e natural. Do ponto de vista sociológico, um conceito parece, justamente, servir para encontrar um conforto conceptual que nos acomode ambições várias, mas, se calhar ainda mais do que isso, que nos garanta, muito, o que sabemos poder não estar garantido nunca.

A uma dessas garantias construídas a pulso, que já quase todos defendemos indiscutivelmente, nomeámos “infância”, que corresponde à viva chama aonde, depois, dizem as Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski, o sonhador-adulto iria procurar “ao menos uma fagulha para soprá-la e, com esse fogo reanimado, aquecer o coração arrefecido”.

No entanto, o que Fiódor não antecipou, ao proferir esta irrequieta frase, era de que forma, afinal, podia o sonhador, já homem-feito, salvar-se da apatia da vida adulta quando a viva chama da infância nunca havia se acendido sequer.

O vídeo divulgado de crianças em Gaza, a brincarem ao funeral de um peluche que sorri enquanto morre, expõe, precisamente, essa hipótese: a de uma infância sem chama viva, quanto à qual brincar deixou de ser um ensaio da vida por viver para se tornar numa consentida antecipação do destino que a nega.

Este vídeo, publicado por todo o lado, não é uma excentricidade cultural, nem tampouco um episódio isolado de adaptação psicológica ao caos. O que está mesmo em causa é o colapso de um conceito, que demite a infância da sua função libertadora e a torna apenas descritiva do que já foi: brincar não diz o que pode ser, apenas diz o que ainda resta por dizer.

Repare-se que quando uma criança brinca, ela ensaia o mundo, ou devia pelo menos, já que brincar é antecipar possibilidades, experimentar o corpo e desvendar o desconhecido. Todavia, quando o conteúdo desse ensaio é a morte (repetida, banalizada, incorporada), o mundo que está a ser ensaiado já não é o mundo que prometemos às crianças. Aliás, a promessa que lhes fizemos quando as decidimos, mais do que tudo, amar em troca de simples sorrisos, num momento como o do vídeo, falhou por completo: o início daqueles meninos, que todos um dia fomos, passou a ser, deliberadamente, engolido pelo seu próprio fim.

Apesar disto, de um ponto de vista jurídico, a Convenção sobre os Direitos da Criança continua a afirmar, com uma serenidade por vezes trágica, que todas as meninas e meninos, entre outras coisas, têm direito à vida, à segurança e ao desenvolvimento pleno. A pergunta, tenha o custo que tiver, é obrigatória: mas de que crianças falamos afinal? As nossas ou as do mundo inteiro?

Neste exato momento, o Direito não cumpre o seu papel e não apenas por uma lei estar a ser manifestamente violada – o que pode, até, inclusivamente, sob pena de eventuais cominações legais, acontecer. O Direito, que deve potencializar a realidade e não tão só administrá-la genericamente, falha quando deixa de estruturar a própria expectativa de mundo: no frívolo instante em que continua a prometer o que já não consegue sequer imaginar possível.

Estas crianças, periféricas à nossa empoeirada consciência, sorriem no vídeo enquanto enterram aquilo que deviam ser, nada mais já esperando senão um caixão carregado à sombra de uma lei que diz que o futuro começa antes de terminar. Contudo, para elas, que sorriem ainda assim, o futuro acaba no seu próprio antecomeço: no sorriso que nunca lhes chegará às orelhas, na barba que jamais lhes sairá da pele, nos pés que nunca desvendarão o caminho não só do mundo, mas de si mesmas.

Com alguma certeza, talvez esteja aqui o ponto mais inquietante disto tudo: quando o Direito deixa de, corajosamente, potencializar o destino do mundo, este foge-lhe das mãos. A norma, quando não erguida do papel que a escreve, passa a ser horizonte que muito mostra, mas no qual pouco brilha.

Por isto, devemos também regressar a Fiódor Dostoiévski: não só para concretizar a esperança do sonhador-adulto, que vasculha na infância uma chama viva onde ainda possa aquecer a felicidade já não sentida, mas, verdadeiramente, para reconhecer o risco iminente de essa chama viva poder, antes de qualquer coisa, jamais ter ardido vez alguma. A partir daí, já não nos bastará perguntar como se salva o perdido sonhador. Nesse momento, a pergunta desloca-se e torna-se outra: como encontrar, então, um Direito que desça do horizonte, se torne habitável e nos conduza ao amanhã?

Se ainda houver quem queira um humano mundo, esta é a questão que precisamos de responder com a urgência que o ontem já trazia. Afinal, o Futuro espera por quem for, mas não espera por quem não fizer dele o dia.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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