Ceuta e os idiotas úteis do trumpismo na Europa. Opinião de Gonçalo Ribeiro Telles
Sob uma pressão brutal, Espanha defendeu sozinha uma fronteira externa da União Europeia. Em 48 horas, dezenas de milhares de pessoas tentaram entrar em Ceuta a partir de Marrocos numa ação premeditada pelo governo daquele país. Pelo menos, 72 pessoas morreram ao momento em que escrevo. Os centros de acolhimento, sobretudo os destinados a menores não acompanhados, rebentaram pelas costuras. Dois dias depois, mais de 48 mil já tinham regressado a território marroquino, sem qualquer ajuda ou solidariedade europeia digna desse nome. A crise foi gerida – tarde, mal, bem, com um preço humano que ninguém devia branquear, na qual inocentes desesperados foram usados como peões num ataque político – mas onde a gestão coube toda ao governo espanhol sozinho.
E o que fizeram a direita e a extrema-direita europeias nesse momento? Instrumentalizaram a crise, deram largas à histeria e comportaram-se como facilitadores da mesma administração que há poucos meses declarara a Europa democrática e liberal como sua principal inimiga num documento oficial. Essa mesmo que, tal como Israel, enquanto tudo isto acontecia, twittava através de contas oficiais (!) a nova invasão de muçulmanos (!) no país do ‘terrível’ primeiro-ministro espanhol que, não por acaso, não faz outra coisa há largos meses do que se opor e liderar uma estratégia diferente à de Trump e Netanyahu.
Giorgia Meloni saiu à frente. Ignorando o passado mais recente do seu executivo ou o mais longínquo de Itália, fez soar o alarme da hipocrisia. Suspendeu a aplicação de Schengen a quem chegasse de Espanha. Como Itália não tem uma única fronteira terrestre com o país, o gesto transformou-se em pura encenação, dirigida essencialmente à campanha eleitoral do próximo ano. Prometeu, em tom de cruzada, que “não cederemos um milímetro” na luta contra a imigração........
