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Ceuta e os idiotas úteis do trumpismo na Europa. Opinião de Gonçalo Ribeiro Telles

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06.08.2026

Sob uma pressão brutal, Espanha defendeu sozinha uma fronteira externa da União Europeia. Em 48 horas, dezenas de milhares de pessoas tentaram entrar em Ceuta a partir de Marrocos numa ação premeditada pelo governo daquele país. Pelo menos, 72 pessoas morreram ao momento em que escrevo. Os centros de acolhimento, sobretudo os destinados a menores não acompanhados, rebentaram pelas costuras. Dois dias depois, mais de 48 mil já tinham regressado a território marroquino, sem qualquer ajuda ou solidariedade europeia digna desse nome. A crise foi gerida – tarde, mal, bem, com um preço humano que ninguém devia branquear, na qual inocentes desesperados foram usados como peões num ataque político – mas onde a gestão coube toda ao governo espanhol sozinho.

E o que fizeram a direita e a extrema-direita europeias nesse momento? Instrumentalizaram a crise, deram largas à histeria e comportaram-se como facilitadores da mesma administração que há poucos meses declarara a Europa democrática e liberal como sua principal inimiga num documento oficial. Essa mesmo que, tal como Israel, enquanto tudo isto acontecia, twittava através de contas oficiais (!) a nova invasão de muçulmanos (!) no país do ‘terrível’ primeiro-ministro espanhol que, não por acaso, não faz outra coisa há largos meses do que se opor e liderar uma estratégia diferente à de Trump e Netanyahu.

Giorgia Meloni saiu à frente. Ignorando o passado mais recente do seu executivo ou o mais longínquo de Itália, fez soar o alarme da hipocrisia. Suspendeu a aplicação de Schengen a quem chegasse de Espanha. Como Itália não tem uma única fronteira terrestre com o país, o gesto transformou-se em pura encenação, dirigida essencialmente à campanha eleitoral do próximo ano. Prometeu, em tom de cruzada, que “não cederemos um milímetro” na luta contra a imigração........

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