Brancos costumes e a história do padre Max. Opinião de Filipe Luís
Um dia depois de terem obtido três preciosas medalhas nos mundiais de atletismo de pista coberta, três heróis do desporto português foram vítimas de ataques racistas por parte de energúmenos que atuaram a coberto das redes sociais. Estes racistas antipatriotas, a quem devia, a estes sim, ser retirada a nacionalidade – e talvez essa fosse a solução penal mais eficaz para prevenir este tipo de abusos… − são a ponta de um icebergue de intolerância que cresceu, nos últimos anos, neste País dito de supostos “brandos costumes”. A expressão, aliás, era bastante do agrado de Salazar. E o ditador usou-a, até, de forma benigna, para diferenciar o autoritarismo paroquial português do fascismo italiano e, sobretudo, do nazismo hitleriano. Ora, estes racistas de trazer por casa até ignoram que o próprio Estado Novo, embora só na sua fase final, valorizou o estatuto de nacionalidade portuguesa concedida a cidadãos africanos sob administração lusa, sem distinção – em termos de política oficial… − entre metropolitanos e indígenas. Talvez não pelos bonitos olhos dos direitos humanos, mas pelas conveniências políticas, impostas pelas guerras de libertação, em África. O regime tinha de dizer que não tínhamos colónias, mas províncias, tão portuguesas como as continentais: “Do Minho a Timor.” Neste quadro, um atleta tornado também herói do desporto, Eusébio, foi usado pelo regime como “património nacional”. E o angolano Eduardo Nascimento, em 1967, representou a RTP no Festival da Eurovisão com a canção O Vento Mudou, num tempo em que a propaganda do regime se servia do desporto e da cultura para apregoar as suas alegadas virtudes multirraciais. Nessa altura, convinha à extrema-direita uns figurantes de pele escura para bater no peito pelo lusotropicalismo…
A história dos “brandos costumes” e da moderação dos portugueses é um........
