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Opinião | Abril não se celebra, defende-se!

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Assinalar os 52 anos do 25 de Abril é mais do que um ritual comemorativo, é um exercício de consciência coletiva. A Revolução dos Cravos permanece como um dos momentos mais transformadores da história contemporânea portuguesa, marcando o fim de uma longa ditadura e o início de um caminho democrático que, apesar de consolidado, nunca pode ser dado como garantido.

Em 1974, Portugal libertou-se de um regime que limitava liberdades fundamentais, reprimia o pensamento crítico e afastava os cidadãos da participação política. O 25 de Abril devolveu aos portugueses o direito de escolher, de falar, de discordar. Trouxe consigo a esperança de um país mais justo e abriu portas a profundas transformações sociais, económicas e culturais. No entanto, celebrar esta data não deve significar, cristalizá-la no passado, mas antes compreendê-la como um compromisso contínuo com os valores que a sustentam.

Cinco décadas depois, é inegável que a democracia portuguesa alcançou progressos significativos. A consolidação das instituições, a integração europeia e o desenvolvimento do Estado social são conquistas que não podem ser ignoradas. Mas também é verdade que persistem fragilidades, desigualdades sociais, precariedade, dificuldades no acesso à habitação e um sentimento crescente de afastamento entre cidadãos e decisores políticos. Este contexto alimenta a desconfiança e cria espaço para o surgimento de discursos simplistas e soluções aparentemente fáceis.

É precisamente nesse terreno que prosperam movimentos extremistas. Aproveitando o descontentamento e a frustração, apresentam-se como alternativas ao sistema democrático, muitas vezes recorrendo à retórica da exclusão, do medo e da divisão. A história europeia e mundial demonstra que a erosão da democracia não acontece de um dia para o outro, começa, frequentemente, com a normalização de discursos intolerantes e com a desvalorização das instituições.

Defender a democracia exige, por isso, mais do que evocação simbólica. Exige participação ativa, responsabilidade cívica e uma vigilância constante face a tudo o que possa pôr em causa os seus pilares. Implica reconhecer que a liberdade de expressão não pode ser confundida com a legitimação do ódio, e que o pluralismo não deve abrir espaço à destruição dos próprios fundamentos democráticos.

Neste processo, a educação assume um papel central. É essencial que as novas gerações compreendam o que foi o regime anterior a Abril, mas também o que significou a construção democrática que se seguiu. Conhecer a história permite contextualizar o presente e reforçar a importância de valores como a tolerância, o respeito e a solidariedade.

Ao mesmo tempo, importa não cair em leituras simplistas ou unilaterais da história. A democracia portuguesa não se construiu num único momento, nem foi o resultado de um processo linear. Foi, antes, fruto de tensões, debates e escolhas difíceis que moldaram o regime que hoje conhecemos. Ignorar essa complexidade é empobrecer a memória coletiva e fragilizar a compreensão do caminho percorrido.

Celebrar o 25 de Abril deve, assim, ser um convite à reflexão e à ação. Um lembrete de que a democracia exige compromisso diário e que os direitos conquistados podem ser postos em causa se não forem defendidos. Mais do que nunca, num contexto global marcado por incertezas e desafios, cabe aos portugueses reafirmar os valores de Abril e garantir que continuam vivos nas práticas políticas e sociais.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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