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Isto no fundo ninguém é racista

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24.02.2026

Há uns 35 anos havia uma menina negra na minha escola e não era raro que o seu nome fosse usado como mecanismo de ofensa. Por exemplo, imaginando que se chamava Maria, os miúdos costumavam dizer uns aos outros, em jeito de troça, coisas como “O Manel está apaixonado pela Maria!”. O Manel morria de vergonha, claro. Não sabia bem porquê, mas se usavam aquilo como insulto, sentia-se insultado. Mais tarde seria o Manel a acusar o Zé ou o Tiago de estarem apaixonados pela Maria. Os miúdos lá se ofendiam e a Maria andava ali nas bocas do mundo, invisível quando queria que a vissem e visível quando desejava a invisibilidade.

Não era raro também ouvir expressões como “‘Tás a chamar-me preto?” quando se queria perguntar “Estás a chamar-me burro?” ou imitar sotaques luso-africanos inventados em expressões como “tu és esperto dos cabeça!”. Tudo muito giro.

À medida que o movimento antirracista foi ganhando visibilidade, a escola foi acompanhando de maneira mais ou menos desastrada. A educação para a diversidade tornou-se numa folclorização do outro que culmina, por exemplo, em mascarar miúdos de “negro” pintando-lhes a pele e dando-lhes umas saias de palha para tapar as partes íntimas achando que se está a fazer uma grande serviço rumo à inclusão.

Não será de estranhar que, num país com a história colonial de Portugal, o racismo seja um assunto tão difícil de tratar. Fora setores mais mentecaptos da nossa sociedade bem representados em grupos como o 1143, ninguém pensa em si mesmo........

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