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O duelo que vai moldar a próxima ordem económica

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04.04.2026

Durante mais de três décadas, o sistema internacional viveu sob uma ideia simples: os Estados Unidos da América eram a potência dominante e, em última instância, o árbitro da ordem global. A queda da União Soviética consolidou essa realidade e abriu um ciclo em que o poder militar norte-americano, a profundidade financeira de Wall Street, a centralidade do dólar e a confiança no modelo liberal ocidental pareciam não ter rival credível. Esse mundo não desapareceu por completo. Perdeu, isso sim, a aura de inevitabilidade. Já não há a mesma autoridade, a mesma margem de manobra, nem a mesma capacidade de impor custos sem resistência.

A China está no centro dessa alteração histórica. O que Pequim fez foi notável e profundamente desconfortável para o Ocidente. Cresceu dentro da globalização, sem aceitar o pacote político e ideológico que muitos julgavam inseparável dela. Captou investimento, absorveu tecnologia, ganhou escala industrial, construiu campeões nacionais e reforçou o papel do Estado em setores decisivos. Não se ocidentalizou. Tornou-se mais forte, precisamente porque soube tirar partido da abertura económica, sem abdicar da sua lógica interna, da sua disciplina política e da sua visão estratégica de longo prazo.

Dois centros de poder

É aqui que o debate deve começar. Não estamos perante uma simples guerra comercial, nem diante de mais um episódio de atrito entre grandes potências. Estamos perante uma disputa entre dois centros de poder, com visões diferentes sobre economia, soberania, tecnologia, ordem internacional e até sobre a própria ideia de modernidade.

De um lado está a América, com a sua tradição liberal, o seu capitalismo de mercado e a sua rede de alianças. Do outro está a China, com uma combinação muito própria de planificação estratégica, controlo político, ambição civilizacional e pragmatismo económico. A competição é material, mas também é conceptual. Há dois modelos em confronto e o século XXI será, em boa medida, condicionado por esse embate.

A parte económica é a mais visível, porque sai depressa da abstração e entra na vida real. Tarifas, restrições à exportação de semicondutores, disputa por terras raras, relocalização industrial e duplicação de cadeias logísticas já têm consequências concretas. Pressionam preços, alimentam inflação, alteram custos de produção, mexem nas margens empresariais e obrigam governos a repensar política industrial.

Quando Washington procura travar o acesso chinês a tecnologia crítica, não está apenas a proteger empresas suas. Está a tentar atrasar o salto qualitativo do principal rival estratégico.

Quando Pequim responde com controlo sobre minerais essenciais, lembra ao Ocidente que a interdependência criou fragilidades profundas. O comércio, que durante anos foi apresentado como ponte de prosperidade, tornou-se também um instrumento de pressão e de poder.

Existe aqui uma ironia que merece ser sublinhada. A China ascendeu dentro de uma ordem internacional, desenhada em larga medida pelos próprios Estados Unidos. Durante muito tempo, em Washington e em várias capitais europeias, acreditou-se que a integração de Pequim no comércio global conduziria gradualmente a uma convergência política. Aconteceu quase o contrário. A abertura económica deu escala à China, a globalização ofereceu mercados e recursos, e esse processo permitiu ao país ganhar massa crítica industrial, tecnológica e financeira. Quando os EUA perceberam a profundidade da transformação, já não estavam perante um parceiro difícil. Estavam perante um concorrente sistémico, com dimensão para desafiar a sua primazia no comércio, na produção, na inovação e na influência global.

Desafios da transição

Convém, ainda assim, não cair em caricaturas fáceis. Fala-se muito do fim do império americano, por vezes com um entusiasmo quase adolescente. Essa leitura é prematura. Os EUA continuam a ter vantagens esmagadoras em poder militar, inovação empresarial, sistema universitário, finança global e centralidade monetária. O dólar continua no centro do sistema. Wall Street permanece como o principal eixo do capital global. A rede de alianças norte-americana não tem equivalente.

Também a China está longe de ser invulnerável. O peso da dívida, a crise imobiliária, a demografia desfavorável, a fragilidade do consumo interno e as tensões com vários vizinhos lembram que o caminho de Pequim está longe de ser linear.

O que está verdadeiramente em causa não é o colapso imediato da América, nem uma substituição mecânica pela China. O que vemos é uma transição mais lenta, mais ambígua e potencialmente mais perigosa. O poder norte-americano continua enorme, mas já não é incontestado. A capacidade chinesa continua a crescer, mas ainda não é suficiente para substituir de forma plena a arquitetura que sustenta a ordem vigente.

É precisamente nesses momentos intermédios que o sistema se torna mais instável. A potência dominante reage para preservar espaço. A potência ascendente testa limites, cria alternativas e procura alargar margem de influência. A história costuma ficar mais tensa quando a hierarquia deixa de ser clara.

Os sinais de desgaste dos EUA ajudam a perceber por que razão Pequim se sente mais confiante. A polarização política, a dívida pública, a fragmentação do consenso interno, a instrumentalização da política externa e o desgaste provocado por intervenções longas e dispendiosas reduziram a imagem de solidez que durante décadas sustentou a liderança americana. A isso junta-se uma perceção cada vez mais difundida no Sul Global: Washington continua poderoso, mas já não parece tão previsível, tão coerente ou tão incontornável como antes. Pequim leu esse momento com frieza. Não precisou de confronto direto permanente. Bastou-lhe avançar onde a próxima ordem será decidida: indústria avançada, Inteligência Artificial, energia, transportes elétricos, infraestruturas, matérias-primas críticas e financiamento externo.

Esse avanço não representa apenas crescimento económico. Representa capacidade de condicionar o futuro. Quem dominar semicondutores, minerais críticos, redes digitais, energia e infraestruturas logísticas terá uma vantagem decisiva sobre o desenho da próxima economia global. Por isso, esta disputa vai muito além da retórica diplomática. Está em jogo a arquitetura produtiva do século XXI. Está em jogo quem define padrões, quem controla bloqueios estratégicos e quem transforma dependências económicas em influência política. Numa fase destas, a geopolítica deixa de ser um pano de fundo e passa a ser um fator direto de preços, investimento e risco.

A Europa, e Portugal por arrasto, não vivem à margem desta transformação. Economias abertas e dependentes do exterior sentem rapidamente qualquer mudança nas grandes correntes do comércio, da energia, das matérias-primas e do financiamento. Quando a rivalidade entre Estados Unidos e China sobe de tom, a fatura pode chegar por várias vias: fretes mais caros, bens intermédios mais dispendiosos, maior incerteza para exportadores, pressão sobre cadeias industriais e vulnerabilidade acrescida em setores que dependem de importações estratégicas. A Europa percebeu tarde demais que falar de autonomia estratégica sem indústria, energia competitiva e capacidade tecnológica própria é um exercício retórico com pouca utilidade prática.

No fundo, o duelo entre Estados Unidos e China é a grande questão do nosso tempo, porque obriga a abandonar a ilusão de que a História estava estabilizada. A ordem unipolar, nascida após a queda da URSS, está a ser contestada. A nova ordem ainda não nasceu, mas os seus contornos começam a aparecer. Terá mais fricção, mais competição, mais disputa por tecnologia, por recursos, por rotas e por influência. Também terá menos ingenuidade. O comércio já não é apenas comércio. A moeda já não é apenas moeda. A indústria já não é apenas indústria. Tudo passou a ter peso estratégico.

Ler este momento com seriedade é perceber que não estamos apenas a assistir a um choque entre duas potências. Estamos a viver uma transição histórica entre ordens, entre equilíbrios e entre visões do mundo. Esse é o verdadeiro alcance do duelo entre Washington e Pequim.


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