O mundo encolhe, como o meu útero
O tempo vai passando e eu, entre mil trabalhos, tem de ser assim para quem trabalha nas áreas artísticas, sob pena de o dinheiro não chegar sequer para pagar as contas, vou empurrando a carta com a barriga. Agora, sim, sentei-me finalmente para te escrever.
Nem sei por onde começar. São tantos os problemas e tão pouca a paciência que me resta para tudo. Se calhar, vou começar precisamente por aí, pelo cansaço, pela fase que estou a atravessar e que tantas mulheres da nossa idade conhecem bem. A detestável perimenopausa, se calhar já é menopausa mesmo, que me está a roubar o bem-estar e essa capacidade cavalar de trabalho de que sempre me orgulhei.
Quero começar por aqui porque “o pessoal é político” e este é um tema que ainda causa tanto pudor e embaraço. As mulheres têm vergonha de falar sobre isto, sobretudo com os homens, porque há inevitavelmente, citando os adolescentes, uma “perca de aura”. Mas eu já não consigo calar-me, esteja quem estiver por perto. Nesta fase da vida, as coisas viram um pandemónio interno, calar porquê? São as insónias, a irritabilidade, a senhora de aspeto cansado que nos aparece ao espelho mesmo quando dormimos bem, os suores noturnos, a falta de libido, etc., etc., um sonho. Só que não. Uma bela merda, verdade seja dita. Não estou a ver beleza nenhuma, se calhar estás a vivê-lo de forma diferente, gostava que falasses sobre isto.
É claro que vou pedir ajuda. Felizmente vivo num país que me permite ter acompanhamento especializado, embora seja caro e eu ande a evitá-lo precisamente por isso. Não posso deixar de escrever sobre este assunto, é uma circunstância de saúde, não é um capricho, e nós somos também a nossa........
