Opinião | A ditadura do “está tudo bem”
Crescemos numa sociedade altamente competitiva, onde o valor de uma pessoa parece medir-se cada vez mais pela quantidade de coisas que consegue fazer, pela velocidade com que as faz e pela capacidade de continuar quando já não devia.
Há qualquer coisa de profundamente contraditório numa sociedade construída por seres humanos que exige a esses mesmos seres uma espécie de funcionamento mecânico.
Esperamos corpos que não falhem, cabeças que não parem, carreiras que avancem, relações que resultem. Quando alguma destas coisas não acontece, a pergunta raramente é “o que aconteceu contigo?”. É “como vais resolver?”.
Aprendemos a resolver. A funcionar. A continuar. Quase como se a dor tivesse adquirido uma expectativa de produtividade.
A exigência torna-se particularmente perversa porque já nem precisa de ser feita. A sociedade mostra-nos diariamente aquilo que parece ser uma vida conseguida e nós tratamos de fazer o resto. Comparamos o nosso cansaço com a produtividade dos outros, a nossa desordem com a fotografia alheia, os nossos dias maus com aquilo que os outros decidiram mostrar.
A pressão deixa de estar apenas fora. Passa a viver dentro de nós. É por isso que tantas pessoas sentem culpa quando descansam, quando dizem não, quando adoecem, quando não conseguem acompanhar, quando precisam de ajuda.
Não basta sofrer. Até o sofrimento parece ter uma maneira correta de existir.
Há........
