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O 8 de janeiro e a insurreição neofascista no Brasil. Pelo investigador Carlos Hortmann

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09.05.2026

Este artigo é o segundo da série “Brasil, que país é este?”, tendo como objetivo a elaboração de uma radiografia sociopolítica do que entendo serem as grandes questões da formação social brasileira, procurando apresentar elementos para que possamos analisar e acompanhar as eleições presidenciais de outubro de 2026 com uma veia histórica crítica e de longa duração.

A hipótese historiográfica que trabalho e procuro sustentar é que o 8 de janeiro foi um ponto de convergência de diversas contradições e crises que atravessam a história da formação social brasileira contemporânea: a continuidade da (tácita ou não) tutela militar sobre os regimes políticos brasileiros desde a fundação da República, o extremar do bolsonarismo enquanto movimento de cariz neofascista e a incapacidade da chamada Nova República (1988) de romper com os aparelhos institucionais e a lógica autoritária herdadas da ditadura empresarial-militar de 1964 (e suas raízes coloniais). Noutras palavras, no Brasil, a (inacabada)“transição” pós-ditadura não julgou os crimes militares (os torturadores continuaram impunes), não levou a cabo uma refundação das Forças Armadas e não se impôs à instituição militar o reconhecimento público dos seus crimes à sociedade.  O máximo que tivemos foi uma política de memória com a criação da “Comissão Nacional da Verdade”, durante o governo de Dilma Rousseff (a ex-guerrilheira que lutou contra a ditadura), que provocou a ira do Partido Fardado. Em síntese, temos uma situação em que o passado brasileiro realmente nunca passou.

Esses elementos sinalizados procuram destacar que as continuidades (e suas descontinuidades) históricas são centrais para compreender o bolsonarismo (tema do quarto artigo dessa série). A extrema-direita brasileira não nasceu com Jair Bolsonaro, embora nele tenha encontrado a sua figura de massas (o totem do Partido Fardado). O que estou a ressaltar é o facto de existirem linhas de continuação que atravessam o integralismo dos anos 1930 (de inspiração lusitana), a ditadura empresarial-militar, a ideologia da “ordem” autoritária e o anticomunismo (preventivo) como gramática política mobilizadora. A Ação Integralista Brasileira foi uma das maiores organizações fascistas fora da Europa; décadas depois, setores integralistas e reacionários continuaram presentes no imaginário e nas estruturas da ditadura brasileira entre 1964 e 1985. O bolsonarismo teve a capacidade de incorporar esse legado da direita integralista e reacionária (racista), mas sob novas condições históricas, convergindo o militarismo (a violência), o fundamentalismo religioso cristão, o lavajatismo, um programa económico ultraneoliberal e assente no agronegócio (latifúndio). E com essas forças sociais articuladas numa dinâmica de mobilização, organização e comunicação a partir do ciberespaço (internet, redes sociais, etc.). 

Nesse sentido, os antecedentes do 8 de janeiro precisam serem compreendidos, primeiramente, numa perspetiva de longa duração histórica que procurei destaca – o autoproclamado poder moderador (tutelar) que as Forças Armadas Brasileiras reivindicam para si. Num segundo momento, os factos conjunturais, a sequência de acontecimentos que se encetou com a derrota eleitoral de Jair Messias Bolsonaro em outubro de 2022. Ou seja, após a vitória de Lula da Silva, os bloqueios de autoestradas espalharam-se pelo país e chegaram ao ponto de cantarem o hino nacional para um pneu; todavia, estes não eram protestos dispersos ou espontâneos, visto que apresentarem uma estrutura organizativa de som, logística (especialmente alimentar), palavras de ordem, orientação política e sobretudo financiamento. O objetivo era produzir caos. A imagem evocava, noutro contexto, a greve de camionistas no Chile de Salvador Allende: criar desabastecimento, paralisar o país, fabricar a sensação de ingovernabilidade e preparar a intervenção “salvadora” do Partido Fardado.

A partir desse momento, formou-se um rito golpista em torno dos quartéis, a rezar/orar para os muros, a espera pelas fantasiosas “72 horas” decisivas, enquanto apelavam ao artigo 142 da Constituição brasileira, segundo o qual as Forças Armadas poderiam intervir como suposto “poder moderador” e deslocavam milhares de bolsonaristas para as portas dos comandos militares (com a permissão direta ou indireta dos militares), a fim de pediam “democraticamente” uma ditadura militar. Os acampamentos tornaram-se uma espécie de sementeira golpista: socialização neofascista e propagação da retórica........

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