menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O que acontece quando aparentemente nada acontece em 'Dias Perfeitos'

7 0
previous day

O que acontece quando aparentemente nada acontece em ‘Dias Perfeitos’

Não é só uma palavra na boca da protagonista que conta a história, mas é especialmente a ela que se recorre ao se decidir a entender um filme. Os outros elementos - enquadramento, composição, plano — passam quase despercebidos para a maioria de nós, os mortais que mal sabem falar contra-plongée, imagine só saber o que é um.

Contra-plongée é um enquadramento em que a câmera filma de baixo para cima, fazendo com que o personagem ou um objeto pareça maior, mais poderoso ou dominante na cena.

Mauro CezarCom Renato, Vasco quebra tabu contra o Palmeiras

Com Renato, Vasco quebra tabu contra o Palmeiras

Josias de SouzaCPMI faz show barato ao convocar ex de Vorcaro

CPMI faz show barato ao convocar ex de Vorcaro

José Paulo KupferJuros entram em zona de incerteza com guerra

Juros entram em zona de incerteza com guerra

Milly LacombeFlu sacode a poeira e mostra sua força em Belém

Flu sacode a poeira e mostra sua força em Belém

Acontece que se você é uma das pessoas que precisa da palavra para ler tudo que acontece no mundo, é bem possível que abandone "Dias Perfeitos", dirigido por Wim Wenders, logo em seus primeiros minutos dizendo o que li por aí: "não acontece nada neste filme", "as pessoas quase não falam".

Fosse a falta de diálogos um problema, o cinema que começou lá atrás sem som nunca teria chegado até os dias de hoje. Sem falar nos clipes musicais que fizeram uma multidão sonhar em ser VJ um dia.

Nós aceitamos narrativas visuais sem diálogo em produtos hiperconsumidos, mas rejeitamos isso quando o cinema vai devagar e pede toda a nossa atenção para acompanhar uma história. É o caso da história contada pela vida do Hirayama.

"Dias Perfeitos" acompanha a rotina de um homem que limpa banheiros públicos em Tóquio, no Japão, e que encontra na repetição dos gestos pequenos e na atenção radical ao que faz, um jeito de passar pela vida. Ou de sobreviver a ela. Todos os dias, este homem já mais velho se levanta, rega as plantas, pega o café da manhã, entra no carro, bota uma música e depois durante um dia inteiro faz o seu trabalho de uma maneira presente, detalhista e silenciosa. Ele é um trabalhador do Tokyo Toilet, responsável por deixar tudo perfeitamente limpo e no lugar. A rotina não é uma fuga do mundo, mas um jeito de estar nele.

Wenders, que dirige o filme, foi convidado a observar os banheiros públicos de Tóquio pensando em registrar esses espaços e os seus usos. Percebeu que o cotidiano, os gestos e o tempo vividos ali poderiam ser contados numa ficção e não em um documentário, que possivelmente é um dos primeiros caminhos narrativos para se guardar essa história.

A gente sabe pouco de Hirayama, mas desconfia da sua vida com os outros personagens que cruzam a sua vida, sempre cheios de palavras e de poucos silêncios. A gente o entende pelo contraste da sua existência com as outras, agitadas demais, rápidas demais, sempre com muitas novidades a serem contadas.

Em algum momento, escapa da sua irmã que a família é um lugar mais acolhedor e seguro do que já foi no passado, no que Hirayama sorri um pouco. Silenciosamente, e só.

O filme não explica o que aconteceu para ele ser quem é agora e, como este passado nos entregou este homem radicalmente comprometido com uma rotina cheia de pequenas felicidades esperadas, como se sentar no jardim na hora do almoço e fotografar as folhas. O seu instante Komorebi, que é o termo japonês para a luz do sol filtrada pelas folhas das árvores, um fenômeno cotidiano e passageiro que expressa a atenção ao instante, ao efêmero e à beleza que não se repete.

Num outro momento da história, ao lado da sobrinha e enquanto anda de bicicleta, Hirayama responde à felicidade da adolescente que mal terminou de viver um momento inspirador ao lado do tio e já quer saber o que vão fazer depois, "que a próxima vez é a próxima vez. E agora é agora". Um resumo sobre o jeito de Hirayama ser e estar no mundo.

"Dias Perfeitos" não oferece respostas nem grandes viradas. O que ele faz é deslocar a régua com que a gente mede um dia bom. A vida aparece menos como uma promessa a ser cumprida e mais como uma presença possível: o trabalho feito com dignidade e cuidado, o tempo vivido sem a pressa das redes sociais, o agora tratado como suficiente, quando é só ele mesmo que a gente tem. Nada disso parece resolver o mundo, mas nos deixa aqui, presentes. E isso é tudo que a gente precisa para que os dias sejam, de fato, perfeitos.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.

Arábia Saudita intercepta mais de 20 drones; militar francês morre no Curdistão

Trump diz crer que novo líder supremo do Irã está vivo, mas 'ferido'

PSD aciona STF contra regra para eleição indireta no RJ

Libertadores conhece os 32 clubes da fase de grupos; veja potes do sorteio

Avião com 115 haitianos fica retido em SP; maioria tinha visto falsificado


© UOL