Silêncio de Toffoli desperta desprezo de Lula e fortalece Mendonça
Silêncio de Toffoli desperta desprezo de Lula e fortalece Mendonça
Recolhido ao silêncio, um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) se mostrou capaz de despertar o desprezo público do presidente da República, mudar a correlação de forças na corte e incendiar uma crise que dominou o país em plena campanha eleitoral.
Aos 58 anos, com a reputação avariada entre os pares pelo comportamento dito instável, Antonio Dias Toffoli vive momento sui generis nas suas 17 primaveras no STF.
Sem votar no Caso Master por se declarar suspeito, o ministro acabou por fortalecer o relator André Mendonça na disputa com o grupo antagônico de Alexandre de Moraes.
Declarada sua suspeição "por foro íntimo", Toffoli não profere decisão sobre nada relacionado ao Master desde fevereiro. Mas, na histórica sessão do dia 15 de setembro, se quisesse, poderia ter reivindicado direito a voto.
No entendimento de assessores do Supremo diretamente ligados ao caso, a questão de ordem levantada por Gilmar Mendes sobre analisar a situação de Moraes e Mendonça conjuntamente comportava uma exceção.
A objeção de Gilmar não atingia o mérito da sessão, que era abrir ou não uma investigação sobre Moraes.
Tanto assim que o próprio Moraes votou —sem ser contestado —, assim como Mendonça.
Toffoli tinha motivos para se juntar ao bloco dele. Os dois foram os primeiros a ser citados em investigações com familiares envolvidos em relações comerciais com o Master e agora estão sob intenso escrutínio.
Mas o ministro preferiu o silêncio. E deixou, assim, de dar maioria a Moraes, seu amigo desde os tempos da Faculdade de Direito da USP no final dos anos 1980 em São Paulo.
Naquela sessão histórica em que o plenário deveria decidir se Alexandre de Moraes seria ou não investigado, uma cena silenciosa e fora das câmeras remeteu à relação discreta que já dura 20 anos entre Toffoli e Mendonça.
Nos primeiros minutos de sessão, Toffoli pronunciou as poucas palavras que emitiria no dia para anunciar que, mais uma vez, estava fora do julgamento.
"Por suspeição de foro íntimo, para preservação da Corte, do ponto de vista de eventuais especulações, eu declaro a minha suspeição para participar desse julgamento, mas não me retirarei", disse Toffoli.
Ao contrário do ministro Nunes Marques, que se declarou impedido e deixou o plenário, Toffoli lá ficou.
De toga, em sua cadeira de ministro, em silêncio.
Um capinha, como são chamados os assessores dos ministros, pegou um bilhete escrito à mão por Mendonça, contornou Moraes na cadeira ao lado, e o entregou a Toffoli.
O ministro desdobrou o papel, leu e olhou para o remetente. Fez um joinha com o polegar e voltou as atenções ao plenário.
Toffoli abriu portas fundamentais para Mendonça
Lá se vão quase duas décadas desde que Toffoli abriu portas a Mendonça pela primeira vez.
Em 2007, aos 40 anos de idade, Toffoli, um advogado talentoso do PT, assumiu a Advocacia-Geral da União (AGU), no segundo governo Lula.
Sentou na cadeira e, num dos primeiros atos no cargo, baixou uma portaria que........
