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Entre grandes mulheres da coquetelaria, ainda não vi luz no fundo do copo

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Entre grandes mulheres da coquetelaria, ainda não vi luz no fundo do copo

Era carnaval, mas em Buenos Aires. No lugar de musas e rainhas de corpos sarados e samba no pé, uma espécie de procissão ritmada, com cara de farra das antigas. Segundo os portenhos, uma combinação da festa carioca e do Uruguai. Estranhei, mas me senti melhor que na festa brasileira: meu corpo pouco importa. Esquisito se sentir aliviada por isso?

No Brasil, vejo amigas e colegas com "tapa-teta", tudo de fora, mas um eterno "não é não" estampado no medo de estar numa multidão.

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O "corso" agitado pelo Tres Monos, um dos melhores bares do mundo, me fez dançar pela rua Thames, em Palermo. A galera de muitos cantos do planeta me faria explorar a noite, os bares, os restaurantes e também a minha identidade, como uma mulher que ama e trabalha com bebida, comida e fazer gente feliz.

De surpresa num intervalo das muitas celebrações, fui convidada a participar de uma "charla" sobre mulheres e hospitalidade. Fomos ao barrio Mugica, uma comunidade de ondas imigrantes encrustada entre bairros de classe média de Buenos Aires, onde funcionam projetos de gastronomia e coquetelaria para jovens que buscam emprego, uma chance, um rumo.

Entre eles, a Escuelita, dos Monos. E entre os alunos, muitas meninas com aquele brilho. Sabe aquele brilho de orgulho?

Depois de um tour com direito a guerra de bexigas de água atiradas pelas crianças que se escondiam nas ruelas, sentei de frente para uma plateia de bartenders e curiosos.

Ao lado de potências da indústria: a elétrica Margarita Sader (do Paradiso de Barcelona), a elegância-maior Sandra Lawrence (da The Cocktail Lovers), as bartenders-estrela Millie Tang, Holly Graham, a minha ídola Inés De Los Santos, a gerente do timaço de mulheres do Tres Monos Sofía Miró, a potência Mona Gallosi, e minha colega Sorrel Moseley-Williams.

Gelei. E deixei o coração falar. E, pensando em retrospecto, espero ter plantado uma semente: não se fala de hospitalidade e de mulheres da indústria sem falar para as mulheres do lado de fora dos balcões. De todas nós.

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No Japão, onde a britânica Holly montou seu Tokyo Confidential, ela fincou uma personalidade totalmente libertária e vê mais e mais mulheres japonesas superarem a timidez e os olhos tortos da tradição para beberem solo. Barulhenta, ousada, brilhante, fascinante.

Na Paris em que a australiana Millie Tang hoje trabalha, a igualdade de gênero parece estar anos-luz à frente do resto do mundo. Ela é uma máquina, de um foco estonteante e faz tudo parecer orgânico, natural, "alcançável". De babar.

Quando chegamos à América latina, Inés, Mona e Sofía falam de boas notícias, como chegamos longe, como mudou desde a geração dos anos 90 para agora, dos anos 20. Duas veteranas e uma jovem argentina mostram que não vai ser uma onda conservadora e machista que nos derrubará.

Um outro nome gigante por lá, é a Aline Vargas, brasileira comandante do Florería Atlantico, que passou todo tipo de sangue, suor e sucesso no meio.

Eu, me desculpem, tive que lembrar que estamos em momentos sombrios, de olhares tortos para uma mulher que gosta dos bebericos, julgada, assediada e questionada o tempo todo. Lembrei da 'loira gelada', da sexualização da bebedora. De como nosso corpo não é de prazer, mas de prisão ou serviço pelos olhos de muitos. Ainda.

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Falo por mim, falo pelas minhas amigas bartenders, falo pelas minhas colegas bebedoras: somos muitas por aí, mas raramente somos referência, somos liderança, somos voz que conduz. Somos vozes que reclamam sem serem ouvidas. Somos ouvidos para falsas promessas e baboseiras — em ataques ferozes ou "apoios" vazios.

Durante o painel, a ideia era que trouxéssemos esperança e histórias inspiradoras. A minha, por ora, tem sido dar murro em ponta de faca como uma jornalista-gestora, uma curiosa das histórias de bar, uma mulher de 40 anos que sabe que o estilo de vida boêmio pode começar a cobrar a conta na minha saúde.

Esse era um texto para ontem, Dia das Mulheres, mas seria hipocrisia demais eleger um dia somente para mim, para as mulheres todas daquele painel, daquela plateia, desse público da coluna, do portal em que trabalho. Todo santo dia é dia de tentar de novo, de não baixar a cabeça - e que se dane se minha assertividade for vista como histeria, braveza.

No final de tudo, meu papel na indústria é levantar mais e mais gente para inspirar mais e mais gente. Com a faca entre os dentes e um copo na mão.

*Trilha sugerida para harmonização com essa coluna: que me desculpe a Margarita e a "Let's Get Loud" de todas as ocasiões, mas sou mais um "Respect" da Aretha Franklin

Quem quiser bater um papinho, sou a @sigaocopo no Instagram. Parto para férias e em abril estou de volta.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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