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Efetividade ou afetividade: o dilema que o seu chefe não vê

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21.03.2026

Efetividade ou afetividade: o dilema que o seu chefe não vê

Tem empresa batendo meta com equipe adoecendo. E achando que está tudo bem.

Os números não mentem. No Brasil, o engajamento despencou para o menor nível da história: apenas 39% dos profissionais se dizem conectados com o trabalho, segundo a pesquisa Engaja S/A (FGV/Flash). Os outros 61%? Cumprem tabela. Presentes de corpo, ausentes de alma.

Ao mesmo tempo, um recorde assustador: mais de 546 mil pessoas foram afastadas do trabalho por transtornos mentais em 2025, de acordo com o Ministério da Previdência Social. Ansiedade, depressão, burnout.

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Esses dois fenômenos não são coincidência. E o custo para o negócio é brutal. O baixo engajamento custa à economia global 9% do PIB, estima a Gallup. No dia a dia, isso se traduz em turnover, perda de produtividade e um custo invisível de inovação que nunca acontece.

Eu sei disso porque já estive do lado de lá. Era um líder eficiente, mas emocionalmente bloqueado. E esse bloqueio tinha um custo que eu ainda não conseguia enxergar.

O líder que não sabia amar

Pensa num cara que chegou aos 35 anos incapaz de dizer "eu te amo" para a mulher que é o amor da sua vida. Que não conseguia demonstrar afeto pelos pais, pelos irmãos. Esse cara era eu.

Eu amava, mas não sabia dizer. E essa incapacidade de ser vulnerável na vida pessoal se tornou uma armadura tóxica na vida profissional. Como eu poderia criar um ambiente de confiança se eu mesmo vivia dentro de uma fortaleza?

Meu primeiro modelo de liderança foi meu pai, o "Seo" Pedro. Dono de uma assistência técnica, ele tratava as pessoas com um carinho e uma empatia que eu, o futuro líder, não conseguia replicar. Eu tinha a efetividade. Faltava a afetividade.

Quando meu primeiro filho nasceu, eu tinha 35 anos. A Débora, minha esposa, com quem eu já estava há anos, nunca tinha ouvido "eu te amo" da minha boca. Eu não queria que meu filho crescesse com um pai assim.

Busquei ajuda. Um terapeuta, indicado por amigos médicos. A primeira sessão foi numa terça-feira, final de tarde. Sentei no divã e, por 45 minutos, tudo que eu ouvia do outro lado era: "Aham. Aham".

No final, perguntei: "Doutor, o que eu faço?". Ele respondeu: "Eu tenho um plano. Você pode voltar na quinta-feira?". Esse era o plano? Era.

Quinta-feira, mesma cena. 45 minutos de "aham, aham". Eu não aguentei. Explodi. "Doutor, por favor, me ajuda! O que eu faço para começar a resolver isso hoje?"

Ele me olhou e disse: "Já que você gosta de plano de ação, tenho três. Plano A: vai lá e resolve isso hoje mesmo". Eu ri... Se eu soubesse como, não estaria ali.

Ele continuou: "Plano B: vamos marcar mais 10 sessões? Não. Mais 10 meses? Não. Mais 10 anos de terapia? Tenho pacientes aqui há 10 anos". Fiquei sem saber se era uma piada ou uma sentença.

"E antes que você responda, tem o plano C: assume a sua incompetência como pai e deixa para a próxima geração".

Aquilo me atingiu. Eu não queria deixar para a próxima geração.

Naquela noite, acordei às 2 da manhã. Sem acender a luz para não acordar a Débora, fui na ponta dos pés até o berço do meu filho. E ali, no escuro, sussurrei: "filho, eu te amo".

A partir daquele dia, comecei a dizer "eu te amo" para minha esposa. Para minha família. E comecei a levar essa humanidade para o trabalho.

Anos depois, aos 40 anos, na minha primeira posição de liderança internacional, fui surpreendido num evento na Espanha. Era um encontro em que familiares de Colaboradores que estavam em outro país enviavam vídeos gravados. Mas, de repente, o surpreendido fui eu. Apareceu na tela um vídeo da minha mãe, do Brasil. Pela primeira vez na vida, ela disse que me amava e que tinha orgulho de mim. Eu despenquei a chorar por uns 15 minutos, sendo abraçado pela diretora de gente da empresa.

O antigo Paulo, o "arrogante e fechado", teria morrido de vergonha. O novo Paulo entendeu que vulnerabilidade não é fraqueza. É a matéria-prima da conexão. E da performance.

Liderar é um exemplo que se multiplica

As pessoas não se conectam com o crachá. Elas se conectam, ou não, com o ser humano por trás dele. Numa operação com 60.000 Colaboradores atendendo 2 milhões de Clientes por dia, muitos me perguntavam como era possível liderar tanta gente. Minha resposta era sempre a mesma: "Quando eu me relaciono, busco falar com um deles de cada vez, e me esqueço dos outros 59.999".

O nosso slogan era tratar cada cliente como se ele fosse o único. Mas para que 60.000 pessoas entregassem isso todos os dias, elas precisavam sentir o mesmo por parte dos seus líderes. O colaborador nunca vai entregar ao cliente aquilo que ele próprio não sente. A afetividade não é um detalhe de gestão. É o começo da cadeia que chega até o resultado.

Hoje, ainda recebo mensagens de pessoas que liderei. Elas querem que eu veja o quão longe chegaram, e me agradecem por alguma conversa, algum encorajamento. Não há número no balanço que pague isso.

Então, da próxima vez que você olhar para a sua meta, pergunte-se: seu time está entregando resultado ou está apenas sobrevivendo a você?

A crise de saúde mental que vemos nos números não caiu do céu. Ela tem endereço: a sala do líder.

Efetividade sem afetividade entrega trimestres. Mas perde pessoas. E quando as pessoas vão embora, os trimestres também vão.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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