Ônibus em crise: São Paulo e outras cidades veem debandada de passageiros
Ônibus em crise: São Paulo e outras cidades veem debandada de passageiros
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Durante décadas, o ônibus foi o relógio das cidades brasileiras. Ele determinava o horário de acordar, de sair do trabalho, de chegar em casa. Era previsível, mesmo quando lotado. Hoje, essa engrenagem perdeu ritmo e os números mostram que não se trata apenas de impressão.
Na capital paulista, maior mercado urbano do país, a média de passageiros transportados por dia útil era de 8,88 milhões em 2019 - ano anterior à pandemia do Coronavírus. Em 2025, caiu para 7,05 milhões. São 1,83 milhão de viagens a menos todos os dias, uma redução próxima de 21%, mesmo após o fim das restrições da pandemia. A frota também diminuiu: de 12.899 ônibus em 2019 para 12.097 neste ano.
O dado ganha ainda mais peso quando comparado à demografia. A população do município não encolheu. Pelo contrário: segundo o IBGE, São Paulo tinha 11,45 milhões de habitantes no Censo de 2022 e estimativa superior a 11,9 milhões em 2025. Há mais moradores circulando na cidade, mas menos gente dentro dos ônibus.
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O fenômeno não é isolado. No Brasil, o transporte coletivo urbano por ônibus perdeu 44,1% da demanda entre 2013 e 2023, segundo o NTU (Anuário da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos). Mesmo após a retomada parcial pós-pandemia, em abril de 2025 o sistema operava com 86% da demanda registrada em abril de 2019. A oferta também segue abaixo do pré-crise: 89% do nível de 2019.
Menos passageiros diluindo custos fixos significa perda de eficiência. O índice de passageiros equivalentes por quilômetro (IPKe) atingiu 1,47 em abril de 2025, o menor nível desde 1995 e 4,9% inferior ao de abril de 2019. Ao mesmo tempo, a idade média da frota chegou a 6 anos e 5 meses, o maior patamar da série histórica de 30 anos. Em termos simples: o sistema transporta menos gente, com menor produtividade e com ônibus mais envelhecidos.
Apesar da queda, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e da SPTrans, afirma que trabalha constantemente para ampliar o acesso e a qualidade do transporte público municipal.
"Atualmente, a cidade tem 95% dos ônibus equipados com ar-condicionado e a maior frota de ônibus elétricos do país, com 1.149 veículos movidos por energia limpa. A Prefeitura implantou também, programas como o Domingão Tarifa Zero e Mamãe Tarifa Zero, que expandiram o acesso ao transporte e já beneficiaram mais de 335 milhões de passageiros", disse por meio de nota.
Insatisfação de usuários vai além do preço
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A Pesquisa CNT de Mobilidade Urbana mostra que a insatisfação cresceu. Em 2017, 12,4% dos entrevistados apontavam o transporte como um problema urbano. Em 2024, esse percentual praticamente dobrou, chegando a 24,3%.
O preço deixou de ser o único critério. Segundo a CNT, o custo médio diário do mototáxi é de R$ 12,42, contra R$ 9,75 do ônibus e R$ 9,55 do metrô. A diferença existe, mas é relativamente pequena. Quando o valor "encosta", o desempate ocorre no tempo de deslocamento, na conveniência e na previsibilidade.
O paradoxo é que o risco é conhecido. Dentre os entrevistados que mencionaram dificuldades do mototáxi, 58,5% apontaram o risco de acidentes. Ainda assim, parte do público aceita a exposição maior em troca de rapidez.
"É uma escolha horrível. O cidadão tende a escolher entre chegar em casa em 30 minutos ou em duas horas", afirmou o secretário nacional de Trânsito, Adrualdo Catão. Ele lembra que a motocicleta é um modo mais vulnerável por definição e que sua expansão tem forte componente socioeconômico. "É uma realidade socioeconômica. Você vai encontrar isso em países com crescimento rápido e pouca infraestrutura de transporte coletivo."
Catão também destaca que a maioria das mortes no trânsito ocorre dentro das cidades e que o principal fator que agrava os sinistros é a velocidade. "O fator de risco fundamental que aumenta a gravidade é a velocidade." E acrescenta um elemento comportamental: "A gente se acostuma com o risco."
Fora do ambiente urbano, o cenário é diferente. No transporte interestadual regulado pela ANTT, a recuperação foi mais consistente, com mais de 100 milhões de passageiros transportados em 2024 após a forte queda de 2020 e 2021.
A diferença ajuda a delimitar o debate: nas grandes cidades, o ônibus disputa espaço com aplicativos e mototáxi em uma equação de tempo que pesa cada vez mais. Não se trata apenas de tarifa, mas de eficiência do deslocamento.
O resultado é um sistema pressionado. Menos passageiros reduzem arrecadação; menos arrecadação dificulta renovação e investimento; a qualidade percebida cai; e mais usuários migram para alternativas individuais. Um ciclo que enfraquece o papel do ônibus como eixo estruturante da mobilidade urbana.
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
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