Eduardo Paes flertou com o capacitismo
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Eduardo Paes flertou com o capacitismo
Ao caricaturar uma pessoa com deficiência visual, prefeito do Rio de Janeiro naturalizou preconceito
Episódio ocorreu meses após Brasil sediar maior evento mundial sobre o tema
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Sociólogo, é gestor em acessibilidade e presidente da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB)
Menos de 6 meses após o Brasil sediar o 11º Encontro Mundial da Deficiência Visual —reconhecido como o maior evento já realizado no planeta voltado às pessoas cegas e com baixa visão—, nessa semana fomos confrontados com uma cena constrangedora da qual o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSB), foi o protagonista.
A cena nos revela o quanto ainda patinamos quando o assunto é maturidade social e respeito à diversidade humana. Me refiro à conduta do político ao imitar uma pessoa com deficiência visual no camarim do Sambódromo da Sapucaí. Não há eufemismo possível: foi deselegante, foi um erro.
Como pessoa cega e atuante na defesa de direitos de 7 milhões de pessoas com deficiência visual, afirmo sem rodeios: a atitude não foi somente uma distração ou "brincadeira", mas a naturalização do preconceito e de um flerte perigoso com o capacitismo.
É importante compreender que quando a deficiência vira performance jocosa, ainda que embalada no papel celofane da "descontração", o que se promove é o preconceito, a redução do outro e a agressão simbólica aos corpos diversos.
Sendo assim, a interpretação remeteu a um repertório de estigmatização, no qual a cegueira é associada à desorientação, à confusão e à incapacidade, estereótipos que, há décadas, pessoas com deficiência visual e suas organizações vêm enfrentando com trabalho, produção intelectual e presença institucional.
Ao caricaturar uma pessoa cega, Paes não praticou apenas um ato isolado. Emitiu um sinal. E sinais vindos de autoridades têm efeitos pedagógicos coletivos. Crianças e adolescentes observam e imitam. Jovens replicam. Adultos relativizam. É assim que normalmente o preconceito se naturaliza.
A reação nas redes sociais foi ampla. E convém elucidar: não se trata de "cancelamento", mas de uma parcela da sociedade que não mais admite a ridicularização de grupos historicamente vulnerabilizados.
Exigir respeito e esperar coerência de qualquer pessoa, sobretudo de uma autoridade pública, não é radicalismo. É o mínimo de civilidade.
Em minhas andanças pelo Brasil e pelo exterior, tenho reiterado que toda pessoa, por mais "imune" que se suponha, está sujeita ao olhar crítico —por vezes distorcido e cruel— do outro.
Infelizmente, para muitas dessas pessoas, apenas quando o preconceito atinge alguém próximo, como um filho, irmão ou amigo, que é compreendida sua dimensão concreta. A diferença é que, para milhões de pessoas com deficiência, essa experiência não é episódica. É estrutural e contínua.
Senhor prefeito: somos milhões. Muitas vezes, colocados em situação de vulnerabilidade por barreiras físicas e atitudinais impostas.
Mas também somos pesquisadores, gestores, professores, jornalistas, artistas, empreendedores e líderes que ocupam espaços estratégicos na vida pública e que aprenderam a não se calar. Somos, acima de tudo, pessoas. E nossa humanidade não admite caricaturas.
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É inaceitável que, em 2026, ainda seja necessário reiterar o óbvio, principalmente para pessoas que, como Paes, têm a obrigação de saber: deficiência não é metáfora, nem recurso humorístico. Inclusão não se limita a discurso. A postura inclusiva deve ser praticada também nos gestos.
Portanto, combater episódios como esse não é questão ideológica. É compromisso civilizatório. Respeito e dignidade não são concessões, são princípios humanos e constitucionais. Toda autoridade pública tem o dever inequívoco de honrá-los na prática.
Sinceramente, espero que o senhor prefeito tenha a grandeza de reavaliar sua visão distorcida acerca da deficiência. Se tiver o mínimo de empatia e de sinceridade nessa revisão, que possa aproveitar esse tropeção público para adotar medidas que tornem a cidade do Rio de Janeiro mais acessível, pois é isso que se espera de um prefeito.
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