Declaração de Neymar mostra como vai ser desafiador criminalizar misoginia
Declaração de Neymar mostra como vai ser desafiador criminalizar misoginia
Neymar saiu do jogo bastante nervoso, apesar da vitória do seu time, e disse que o juiz, cuja arbitragem teria sido ruim e injusta, estava "de chico". A expressão é decadente e um dia foi usada para apontar mulheres que estariam menstruadas. É uma expressão ruim e infantil e no caso usada para sugerir que mulheres em seus dias de menstruação são incapazes de agir sem acessar a razão.
É misoginia. Ponto. Mas e agora? O que fazer?
O repórter que estava entrevistando Neymar passou acelerado pela declaração misógina. Nada para ver aqui, circulando. Não falou nada e emendou com outra pergunta sobre o jogo. Volta para o estúdio. Narrador e comentaristas tampouco reclamaram da misoginia. Zero. Não incomodou, será? Ou incomodou e eles preferiram nãos e envolver? Não sabemos.
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Tudo o que sabemos é que precisamos de homens que estejam dispostos a se envolver. Não adianta apenas postar homenagens à colega de trabalho quando o presidente do Flamengo é misógino sem citar o nome do misógino. Vai ser preciso que homens confrontem outros homens, que se indisponham, que tenham coragem. Isso, claro, se quiserem ser chamados de aliados. Haverá sempre aqueles que preferem não se misturar porque, afinal, essa luta não é deles. É por causa desses comportamentos que o machismo finca suas garras. Por causa dos que são abertamente misóginos e por causa daqueles que olham para o outro lado quando testemunham seus pares sendo misóginos.
Mas você pode estar se perguntando por que é misoginia dizer que o juiz que estava supostamente descontrolado e incapaz de agir mobilizado por sensatez estava menstruado. E a gente explica.
Desde a idade média na Europa a ideia de que a menstruação é sinônimo de sujeira e de fraqueza prevaleceu. Foi com o genocídio de mulheres, chamado folcloriamente de "caça às bruxas", que a ideia ganhou consenso. O colonialismo exportou para as colônias a noção de que a menstruação estava ligada a coisas espúrias e que homens deveriam manter distância de mulheres enquanto elas sangram porque o descontrole aumenta. Perigo à vista. Nada disso está perto da verdade, mas precisamos da fabricação de consensos para manter grupos oprimidos.
A jornalista Mariana Pereira, da ESPN, explicou bem explicadinho depois do jogo por que é misógina a fala de Neymar. Eu não vi nenhum homem se revoltando. Não li ainda uma coluna sobre a indecência da declaração do camisa 10 que quer ir à Copa. Vi Alex, comentarista do SporTV, dizer que Neymar precisaria aprender a falar com o juiz. Com o juiz. Não a falar sobre mulheres, não sobre deixar de ser misógino. Com o juiz. Para evitar cartões, sabe? É isso.
Esse tipo de declaração e esses tipos de silêncios mantém as mulheres na arena da fragilidade, da falta de capacidade para ser razoável. Divide o mundo entre razão (dos homens) e emoção (das mulheres). Essa divisão é o que causa tantas violências contra corpos femininos. É ela que leva médicos e enfermeiros a aplicarem menos anestesia em mulheres com dor (especialmente em mulheres negras). É ela que silencia e ridiculariza nossas vozes. É ela que nos mantém às margens. É ela que nos apequena, que nos joga na arena da insensatez. O edifício da misoginia é construído com tijolinhos bem pequenos colocados todos os dias no erguimento de mais um andar. Neymar colocou mais um na noite de quinta. E todos os que calaram passaram uma boa camada de argamassa para que o próximo tijolinho seja fixado.
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