Por que não temos tempo de viver o luto?
Por que não temos tempo de viver o luto?
Eu encontrei a Júlia Jalbut pelo universo do cuidado. Ela desenvolve projetos com esse tema e me convidou para uma conversa sobre vida acelerada, bem-estar e saúde mental há alguns anos. Daí, o tempo foi dando suas voltas e a gente foi se reencontrando. Júlia escreveu dois livros sobre perdas. E resolvemos entender juntas onde a vida acelerada encontra o luto; e por que neste mundo permeado pela produtividade tóxica nós não temos tempo nem para viver as perdas, rompimentos e nos enlutar.
O primeiro livro de Júlia, "Uma casa que não pode cair: encontrando calma e coragem diante do sofrimento de quem amamos" (Planeta, 2023), me acompanhou muito no ano passado em função de uma experiência pessoal.
Nele, ela conta dos cerca de 12 anos em que acompanhou o adoecimento de seus pais. A partir dessa experiência, escreveu sobre o que acontece com quem ocupa o lugar de cuidador (cansaço, ambivalência, medo, perda, necessidade de autocuidado e transformação das relações).
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Recentemente, ela publicou "Navegando o luto infantil" (Record, 2026), em que investiga especificamente como crianças e adolescentes vivem o luto.
A gente começou a conversar com a pergunta de onde tempo, vida acelerada, produtividade e luto se tocam, em especial na relação com as crianças. E saímos convictas de que precisamos dessa interseção para pensar sobre quem cuida de quem cuida; o tempo necessário para elaborar perdas; a impossibilidade de acelerar certos processos humanos; o desaparecimento dos rituais; presença e atenção diante do sofrimento; e a tensão entre autocuidado individual e uma cultura efetiva do cuidado, que requer que pensemos em saídas coletivas e em oferecer condições para que as pessoas possam se cuidar e viver, inclusive os seus lutos.
Compartilho com vocês o nosso diálogo.
Por onde podemos começar a pensar na relação entre tempo, aceleração e luto, em especial o luto entre as crianças?
Eu lembro que, quando meu avô morreu, eu não entendia muito bem as manifestações do luto da minha mãe nem conseguia reconhecer em mim mesma o luto. Existia uma falta de letramento que é o que acontece com........
